Sempre que ouço Ella Fitzgerald, Nat King Cole ou Frank Sinatra, acho que sei falar inglês. As letras das músicas fluem e se tornam mais do que inteligíveis; tornam-se familiares. Muito diferente de ouvir uma banda de rock ou encarar um filme de ação contemporâneo. E nem falo de dicções estridentes que incomodam tanto quanto um disco de vinil arranhado.

Lembro-me também de uma propaganda antiga do uísque Passeport com o David Niven. Ele chega num palacete a bordo de um Rolls Royce, senta-se numa poltrona e começa a falar. “Hello, my friends in Brazil. Do you know me? Oh, never mind!” Uau! Não só entendia tudo, como ainda sou capaz de reproduzir a fala desse gentleman inglês, tolerante ao gosto brasileiro de beber um scotchon the rocks!”

E foi ouvindo a célebre canção de Cole Porter You’re the Top, interpretada por Ella Fitz, a caminho do trabalho, que, além de orgulhar-me por reconhecer as palavras, me dei conta do que era “top” na década de 1930, quando a música foi composta. Top como o Coliseum, top como o Louvre Museum, como o sorriso da Monalisa, como a National Gallery, como um Napoléon brandy, como o salário de Gretta Garbo! E por aí vai… 

Repeti a música três vezes e segui dirigindo nas nuvens, apesar do engarrafamento infalível da Rua Voluntários da Pátria e dos carros que fazem fila dupla na frente do Supermercado Mundial. E, lógico, num cenário bem diferente do de uma estradinha no interior da Inglaterra, a bordo de um Rolls! Mas, deixem estar! Ouvirei a música de novo.

Até que, de repente, um motorista espírito de porco no carro ao lado me puxou do topo para baixo. Começou a buzinar, a xingar. Que anticlímax! O que fazer? Aumentar o som? Ora, ora, onde foi parar a Gretta Garbo da música? Monalisa fechou a cara? E o meu sonho? Que Dante Inferno, baby! Eu não sou top como o Mahatma Gandhi! Que raiva! 

I’m the bottom, but you’re the top! – continuou a músicamas àquela altura, numa versão livre poderia ser: “nasci com a pena preta do urubu, mas você é o máximo!” O estrago de uma ida prazerosa para o trabalho estava feito. Acelerei meu bólido e segui cantarolando: “Caramba! Você é o Rio Nilo; sou o Faria Timbó. Você é Mickey Mouse; I’m Pateta. Você é top; eu sou top-top”.