Minha turma do ginásio vai completar 50 anos e vai ter festa! Em 1973, entrávamos para o Colégio de Aplicação da Universidade do Estado da Guanabara, na Rua Barão de Itapagipe, na subida do Morro do Turano, na Tijuca. O ginásio não existe mais. A Guanabara fundiu-se ao Rio de Janeiro e o prédio do Turano foi abandonado, em razão da escalada da violência na Cidade. Mas a maioria de nós não desapareceu. Só estamos meio século mais velhos!

No único encontro da turma de que participei, há quatro anos, senti um misto de felicidade, saudosismo e frustração por não ter reconhecido muita gente – como muitos também não identificaram este senhor de 60 anos que vos escreve. Faltaram crachás, óculos ou os dois. Já não me lembro. Êpa! Só sei que quando cheguei em casa a ficha caiu diversas vezes. Poxa! Como não falei mais com ele? Certamente, era ele… E com ela? Como não falei com ela?! Já não sou tão tímido como era.  

Estou certo de que as histórias desses reencontros devem ser muito parecidas, seja qual for a turma ou a escola. O que fizemos de nossas vidas? Quem guardou o humor juvenil? Quem casou com quem? Todos somos pais, mães? E avós? Quantos se tornaram professores, bancários, médicos, advogados, jornalistas? É pouco provável que daquele grupo tenha saído um jogador de futebol , um bombeiro, um astronauta ou uma caixa de supermercado – profissões com as quais sonhávamos na infância. Mas e os outros sonhos?! Foram realizados?

Outra indagação incontornável é se nos tornamos pessoas éticas e, sobretudo, gratas pelo privilégio de uma educação pública de qualidade. Naquela época muita gente não podia estudar. E aí ocorre-me o relato de uma festa em que uma ex-aluna fez o maior sucesso, pois tornara- se riquíssima. E de outro encontro em que um dos ex-colegas era o governador. Mas, decorrido certo tempo, nenhum dos dois quis (ou pôde) reencontrar as suas antigas turmas.

Fazíamos muita coisa escondidos, mas não fomos tão além quanto esses dois famosos. Fumávamos no banheiro, as saias das meninas teimavam em não cobrir os joelhos, saltávamos do ônibus pela porta de trás, falsificávamos nossas cadernetas e até sabíamos ser perversos – infelizmente, bullying é uma palavra nova que expressa prática antiga. Mas havia limites, como imagino que continue a haver para tudo que é essencial.

Creio que durante a próxima festa, como pessoas quaisquer, teremos muito a contar de nossas vidas extraordinariamente comuns. Não sei quem gosta de falar de política, de futebol, de viagens, de receitas, de arte ou de amores. Só não me venham com papo de triglicerídeos e colesterol. Quero morrer sem conhecer essas taxas e, lógico, atenção: quem tiver de tornozeleira eletrônica, só entra com um bilhete do responsável.