Vinicius de Moraes teria ousado quando compôs um dos fados mais lindos de que se tem registro: Saudade do Brasil em Portugal. Interpretado por Amália Rodrigues ou por Carminho emociona demais.

E cá estou, há 20 dias em Portugal, com saudade do país onde nasci, em parte, pela aflição instalada desde o dia 8 de janeiro. Um mar nos separa – e nos une, segundo o poeta -, mas as notícias nos alcançam e reforçam a tese de que as tragédias tem a velocidade da luz.

Sei que em poucos dias estaremos de volta ao Rio. Não estamos exilados, como estiveram alguns no passado que sonharam com um Brasil justo e fraterno. Não fomos expulsos pela fome, por guerras ou pela estupidez da nossa espécie. E também não fugimos do país para conspirar contra a felicidade e a esperança de quem aceitou as regras do jogo eleitoral, o disputou e venceu.

O propósito de quem tem o privilégio de viajar é voltar melhor, agregar cultura à sua existência e dividir tudo que apreende com o maior número de pessoas. Prestar testemunho dos bons exemplos; e dos maus como alertas. Viajar é preciso, nem que não se saia de dentro do quarto, como minha amiga Hortência Lencastre traduziu e me ensinou a partir do livro de Xavier de Maistre.

Doeu muito assistir, pouquíssimo tempo depois da instalação de um novo governo, com novos e melhores rumos, ao vandalismo patrocinado pelos que perderam as eleições e pela omissão proposital de militares que ameaçam ao invés de proteger. E dói ainda mais ouvir quem justifique a barbárie ou transfira a responsabilidade para infiltrados imaginários.

Ignorância tem limite. A destes, não. Tudo isso existe, tudo isso é triste, tudo isso é fado.