Paula, sobrinha e herdeira de uma célebre cantora lírica, casa-se com Gregory, tempos depois da tia ter sido misteriosamente assassinada. Os dois vão morar na casa onde aconteceu o crime e Gregory manda fechar o andar superior para preservar Paula de memórias dolorosas. Foi ela, ainda criança, quem achou o corpo.

Este é o ponto de partida do clássico do cinema À Meia Luz, de George Cukor, de 1944, estrelado pela bela e talentosa Ingrid Bergman, Charles Boyer e Joseph Cotten. O título original, Gaslight, tornou-se uma expressão para tortura psicológica: “gaslighting”.

As luzes da casa de Paula e Gregory, alimentadas a gás, ficam fracas quando o marido, supostamente fora, acende a luz do sótão na busca de uma joia valiosa. A percepção de Paula sobre a oscilação da luz é tratada como sinal de problemas mentais, além do quê, o marido esconde objetos, afirmando que a mulher os perde.

Revi o filme e me dei conta de como somos suscetíveis a achar que estamos enlouquecendo; que não teríamos visto nem ouvido o que de fato vimos e ouvimos; que em algum momento dissemos o que não dissemos – como se não acessássemos a realidade das pessoas “sãs”. Sinal do temido Alzheimer? Vida muito além do prazo de validade?

Em tese, é o colapso dos nossos sentidos, dos cinco. Ou seriam quatro desde a Covid? Na prática, uma ação deliberada para confundir. Sou louco ou minto. Se não cheira bem, pum, fui eu! O banco dos réus é o meu lugar. Julguem! Sou culpado, lógico!

Imagino como seria o filme na era da internet das coisas. A Paula contemporânea não suspeitaria que o cruel Gregory pode acender e apagar as luzes com um aplicativo do celular, fazer o ar condicionado funcionar à distância e a caixinha de som tocar uma música do nada. E ele contaria com uma cúmplice que não deixa impressões digitais nas cenas dos seus crimes perfeitos. Seu nome é Alexa. Perdoe o spoiler!