
Pensando em aventurar-me, depois de longa e tenebrosa pandemia, resolvi não fazer o habitual caminho do rato pela Rua Evaristo da Veiga, do estacionamento na Lapa à Cinelândia, onde trabalho.
Aliás, fazer o mesmo caminho, almoçar na mesma hora, no mesmo restaurante, na mesma mesa e não inovar muito no cardápio são movimentos que minha razão condena, mas o emocional de Almeida aquiesce e capitula. Quando faz calor, então, o meu ponto é a menor distância entre dois aparelhos de ar condicionado.
Logo no início, avisto o casario do outro lado de um dos cartões postais do Rio, os Arcos da Lapa. Está em ruínas, ou melhor, continua em ruínas, em contraste com o velho aqueduto. É tombado, mas ainda não tombou.
Dobro à esquerda e deparo-me com o imponente prédio do Automóvel Club do Brasil, de propriedade do Município do Rio! Continua em ruínas. É tombado, mas ainda não tombou.
Atravesso a rua e chego perto das grades do centenário Passeio Público, com suas árvores belíssimas, mas com lixo, muito lixo. De carro, eu já tinha observado roupas penduradas diante da Fonte do Menino, do Mestre Valentim. Entrar e passear no Passeio? Nem pensar.
Essa nova rota até a Cinelândia, via Rua da Lapa e Rua do Passeio, é como seguir pelo Cabo das Tormentas e naufragar antes de chegar ao prédio onde ficava o Metro Boa Vista, antes da antiga Mesbla, da antiga Cidade do Rio de Janeiro, ainda conhecida como Cidade Maravilhosa. Maravilhosa? Para quem? Toda ela?!
Creia, essa experiência foi pavorosa. E não fui assaltado e nem falo da população desassistida que sofre nas ruas! Não vou descrever as vitrines da antiga Mesbla, hoje, Lojas Americanas, nem as bancas de jornal que não vendem jornais nem revistas.
Na semana que vem, com toda certeza, voltarei ao meu caminho de rato, por onde basta seguir em frente, instintivamente, até o trabalho, que, por ironia do destino, é a Câmara Municipal, cuja função é verear, zelar pela Cidade, governada pelo mesmo grupo político há mais de 20 anos. Um amigo dirá: “temos o que merecemos”.
É verdade! O atual prefeito, Eduardo Paes, completou 10 anos no cargo, com um intervalo de quatro anos do Bispo Crivella. Ele gosta de usar chapéu panamá, freqüentar o samba e posar de malandro. Que saudade eu tenho dos tempos da malandragem!