
Quando recentemente comecei a explorar a caixa de recordações e os objetos deixados pelos meus pais, além da enorme nostalgia, perguntei-me como seriam as memórias afetivas do futuro. Que tipo de registros e coisas farão as pessoas viajarem pela história e provocarão sentimentos tão difíceis de traduzir?
De saída, uma foto do meu avô, de setembro de 1921, oferecida à minha avó, “como prova da minha amizade”, escreveu ele. E daqui aos mesmos 101 anos que me separam dessa imagem? Em 2123, onde estarão as mensagens de amor de hoje? Guardadas em um HD, em alguma nuvem? Até que a última hipótese é bastante poética…
Mais adiante, encontro uma carta de setembro de 1953 da minha bisavó Elisa para minha avó Anna, com detalhes de sua festa de aniversário e felicitações pelo nascimento do meu irmão Duda. Revejo minhas diferentes caligrafias em postais mandados para meus avós: letras redondas, letras tortas e a dificuldade de escrever num papel sem linhas… Eles guardaram os postais e os passaram para minha mãe. E no futuro? Quando muito, uma ou outra carta impressa em mais de uma fonte e a caixa de mensagens enviadas por e-mail. Virtuais!
À minha volta, nas paredes da casa, quadros que me acompanharam por toda vida, muitos livros nas estantes, as indefectíveis moringas – dois vasos orientais sempre cercados dos maiores cuidados – e o velho de bronze do meu avô ou o velho de bronze que é o meu avô, segurando um pergaminho com as palavras pax et labor – peças que definitivamente não teriam nem terão espaço em decorações minimalistas, futuristas e cleans…
Vai dar trabalho e apertar muito o peito mexer naquilo tudo. Manuseio um século de emoções! Há destinos óbvios para alguns objetos, como o piano da mamãe, que vai para o único filho que toca o instrumento. Mas achei (e surrupiei) o velho metrônomo no fundo de um armário.
E por que raios quero, eu, um aparelho que mede o andamento das músicas? Uma espécie de batimento cardíaco das melodias, que, hoje, é medido de forma digital, num desses aplicativos impalpáveis. Quando vi o metrônomo, prestíssimo, viajei no tempo: Nininha sentada na frente do piano, partitura aberta e o movimento pendular da geringonça a marcar, tic-tac, largo, adagio, andante, moderato… Brinquei muito com ele… alegro e vivace… No futuro? Brincar? Nem imagino.