
Viajar não é para todos, como seria desejável. Já foi mais barato, mais caro, já foi mais seguro e também mais perigoso. Prazer e aventura para uns. Para outros, nem uma coisa nem outra, obrigação, consumismo, esnobismo… Há muitas variáveis.
Nesta semana, esgotado pelas eleições e triste com a partida de Gal Costa, peguei uma carona na expedição austríaca de ciências naturais que veio ao Brasil entre 1817 e 1818, por conta do casamento da Arquiduquesa Leopoldina da Áustria com D. Pedro, príncipe herdeiro do Reino de Portugal e do Brasil.
Minha viagem começou quando abri o primeiro dos três livros produzidos pela Kapa Editorial, que mostram a façanha que foi investigar e documentar a região para onde iria a filha do Imperador Francisco I da Áustria, com destaque para as aquarelas de Thomas Ender. São lindíssimas e cobrem toda a viagem, desde o porto de Trieste até o Rio de Janeiro, passando por Gibraltar, Ilha da Madeira, Ilhas Canárias e Cabo Verde.
Salto 170 anos e chego aos relatos de meu saudoso amigo Zé Português sobre sua primeira vez na Europa, com uma lista enorme de “obrigações” a cumprir, como se as viagens turísticas devessem comportar deveres.
Em Paris, por exemplo, Zé teria que enfrentar uma jornada de três dias inteiros no Museu do Louvre, pois como ir a Paris sem observar cada detalhe dos quadros da Escola Italiana e Flamenga, das antiguidades gregas, etruscas e romanas e de toda ala de egiptologia? Como voltar ao Brasil sem ter visitado a Gioconda todos os dias para decifrar seu sorriso enigmático?
Na Itália, ele teria que dedicar ao menos dois dias ao Museu do Vaticano e dois à Galeria dos Ofícios de Florença. Um amigo seu disse ter ido às lágrimas diante (e atrás) do David de Michelangelo. Mas, ainda assim, Zé não se conformava com tantas “dicas”.
Só queria flanar, experimentar novos vinhos e cervejas, se empanturrar de croissants, de massas e conhecer paisagens e gente diferente. Ele até consentiria não dormir até tarde em francos franceses, pesetas ou liras (viva o euro!). Mas essa de ter que passar tanto tempo em museus não seria com ele e, tão logo pisou no Aeroporto de Orly, teve uma inspiração que lhe garantiu uma viagem inesquecível.
Nos museus, comprou livros e postais com os detalhes das exposições. Na lojinha do Louvre não deixou de levar uma miniatura da Vitória de Samotrácia, que, anos mais tarde, receberia de sua querida empregada a alcunha de passarinha sem cabeça e, no avião de volta, insone, decorou tudo para falar do sucesso da turnê europeia.
Já no Rio, com a sensatez de não promover nenhuma reunião para mostrar suas fotos, uma tia muito culta perguntou-lhe sobre os Portões do Paraíso do Batistério de Florença. Zé vacilou. Batistério?! Ele só se recordava do spaghetti alle vongole de uma cantina maravilhosa atrás da Piazza de la Signoria, mas da Porta do Paraíso…
A saída foi improvisar… “Bem, tentei visitar, tia Albertina, mas estava chovendo e a porta estava fechada. Fica para a próxima”. Moral da história: se podemos viajar ao Brasil de 1817, podemos perfeitamente conhecer os museus do mundo todo sem exageros ou pelos guias de viagem, bem instalados num bistrô, num café ou num banco de praça, de preferência, com uma baguette, um queijo e um bom vinho.
muito bom. E a aquarela é linda!
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