Bons títulos podem fazer a diferença, sejam títulos de nobreza, sejam acadêmicos. Nem sempre abrem portas, mas ainda fascinam: altezas, professores-doutores, magníficos reitores e excelentíssimos em geral.

Mas trato do título de um texto, que me fez abrir a capa de um livro e só fechar no fim da história. No caso, uma peça de teatro do final do século XIX: The Importance of Being Earnest, de Oscar Wide. Costuma ser traduzido para A Importância de Ser Sincero ou de Ser Honesto ou de Ser Prudente. Ou ainda pela variante A Importância de Se Chamar Ernesto.

A trama é ótima. Sem dúvida, uma sátira à sociedade vitoriana, tão rigorosa nos costumes quanto hipócrita. Aborda os limites da sinceridade, até que ponto deve-se ser sincero, honesto e as surpresas que podem acontecer.

O protagonista assume uma identidade falsa para escapar das regras que o seu tempo impõe – um tema recorrente na literatura e na dramaturgia: as vidas duplas. Jack dá vida a Ernest. Earnest, em inglês, é sincero, prudente, honesto. Um trocadilho no título.

Cabem diversas interpretações… Falamos muito em honestidade. A nossa, obviamente, é bastante elástica. A daqueles que julgamos é inflexível. Mas, a rigor, na prática, nem sempre é o melhor remédio.

A ambigüidade tem o seu valor terapêutico e estratégico, sobretudo quando comparada com um tipo de sinceridade fatal nas relações entre as pessoas, o chamado sincericídio – desfecho mais trágico das revelações.

Na vida pública, políticos hábeis não dizem tudo o que pensam. Não se revelam ateus, por exemplo. São fervorosos diante das câmeras. Todos gostam de crianças e a maioria é contra o aborto. Dependendo da plateia, são mais ou menos liberais.

E fora da esfera política não é tão diferente. Temos, todos, uma imagem a zelar, comumente retocada ou conservada com pinceladas de falsidade, por omissão e silêncio. Temos pessoas a agradar, empregos a manter e um leque de interesses a defender. Portanto, sejamos honestos, a importância de ser sincero é complexa e bastante relativa. Oscar Wilde foi preso porque era homossexual. Na época, a verdade era crime.