
Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Se meu tio Neca estiver presente, cairá duas, três, muitas vezes. E é por isso que preciso convencê-lo a votar Naquilo no segundo turno. Que pelo menos faça campanha! Tio Neca, sobre quem já escrevi, é a encarnação da falta de sorte. Digo falta de sorte para não escrever aquela palavra de quatro letras que dá… falta de sorte.
Apesar de toda a sua boa vontade e bom humor, ele atrai para si todas as pragas e infortúnios. O primeiro incidente foi quando, ainda bebê, a tampa do piano de sua mãe caiu sobre sua cabeça, ainda com moleirinha. É o mais feio dos irmãos, ou melhor, os outros são lindos, perfeitos. E nem tenho palavras para descrever o nariz de Neca.
Em 2018, sua maré que nunca foi para peixe ficou ainda pior, mas ele nunca perdeu a esperança. Perdeu dinheiro, perdeu um rim, continuou a cair na Malha Fina da Receita, sua casa foi infestada de cupins, mas tio Neca não perde a esperança. Esperança nas pessoas, nos diálogos, na fraternidade, esperança num país melhor, mais justo. E decidiu mergulhar de cabeça na campanha de alguns candidatos em 2022. Obviamente, como voluntário. Jamais passaria pela sua cabeça cheia de galos tirar algum proveito pessoal.
Resultado: todos os seus candidatos perderam! Um amigo seu, que disputava uma vaga de deputado estadual, recebeu dois votos. O de Neca e provavelmente o dele próprio. Para federal, a coisa foi um pouco melhor. Sua candidata tornou-se a quinquagésima terceira suplente e tio Neca tem fé que ela ainda irá para Brasília. O senador chegou perto, o governador passou longe e o seu candidato a presidente, com quem ele se identifica pelo sorriso e pela falta de um dos dedos da mão, corre o risco de perder a eleição no segundo turno, como o Brasil perdeu a Copa do Uruguai quando tio Neca nasceu.
Por isso, meus amigos, agarrem-se nos seus amuletos e olho vivo nos parentes! Eles podem ser perigosíssimos. Amo tio Neca de paixão e não vai ser fácil convencê-lo a mudar de voto, pois é uma pessoa iluminada. Mas não sossego enquanto ele não declarar seu voto no Capiroto, no Coisa Ruim, no Tinhoso, naquele cujo nome não devemos pronunciar, pois dá um baita…, digo, uma baita falta de sorte. À vitória!