Durante anos, participei de um dos mais deliciosos programas das noites de domingo: a reunião da herança. A rigor, um festim que, acredite, nada tinha de mórbido, muito menos de diabólico.

O motivo, obviamente, era uma herança! Aquela que os avós de um amigo deixariam para os filhos. Sim, deixariam, pois eles estavam bem vivos nas discussões e, ao lado dos herdeiros, estávamos nós, os amigos, desfrutando da ocasião.

Como em toda família portuguesa, a fartura à mesa estava presente. Ah! Morreria para comer novamente aqueles rissoles de camarão, aqueles pastéis de bacalhau e, para coroar a noite, pudim de laranja e pasteizinhos de nata.

As conversas eram impagáveis! Todos brigavam, avaliavam bens, lançavam dúvidas sobre as amantes que poderiam levar alguma vantagem, bebiam, riam, se beijavam e se despediam. Retomariam a discussão no domingo seguinte.

Foram anos assim, mas ao cabo de um tempo morreu o avô, depois, a avó. Alguma tristeza entrou no cardápio dos encontros, e era natural que assim o fosse. Mas a reunião da herança, para felicidade dos espectadores desse divertido teatro familiar, perdurou ainda por uns bons anos.

Não creio que na maioria das famílias seja dessa forma. É uma pena que não se extraia o lado positivo das partilhas, como a renovação e a multiplicação das sementes que formarão novos legados. Mas o pior mesmo é quando há um único herdeiro para tudo. Coisa aborrecida. Imagine agora, no Reino Unido, como seria muito mais interessante se a Família Windsor discutisse a sucessão de Lilibeth com um leque maior de possibilidades…

Em novos tempos, as ordens sucessórias deveriam ser revistas. Daí, quem herdaria a coroa? Quem ficaria com Buckingham? E os cavalos e cisnes? E Windsor? Eu escolho Balmoral, é mais aconchegante! Whatever! Seja como for, o importante é não estragar o ritual de passagem quando chegar a hora certa. Que todas as rainhas, reis e plebeus rest in peace, descansem em paz.