Difícil encontrar uma justificativa razoável para a viagem ao Brasil do coração de D. Pedro I… Ou D. Pedro IV, segundo informou um dublê de coronel e funcionário do Palácio do Planalto, pela diferença de fuso horário entre Brasil e Portugal.

O escritor Sérgio Rezende, no extraordinário livro “A Vida Futura”, também trouxe Machado de Assis do passado para uma viagem ao século XXI – não seus restos mortais, mas o seu espírito iluminado, numa ficção genial que em diversas passagens dá a sensação de estarmos com uma obra inédita do nosso gênio da literatura nas mãos, uma verdadeira psicografia.

E o coração de Dom Pedro com isso?! Imagine, distinto leitor, distinta leitora, se o coração imperial falasse! Se visse no que o Brasil se tornou! Imagine-o, igualmente, diante das manchetes dos jornais. Será que aquele que bombeou sangue azul para o grito de independência do país às margens plácidas do rio Ipiranga suportaria?!

Não importa! O fato – infelizmente, não o fake – é que 200 anos depois cá esteja de volta o coração do nosso primeiro imperador, que repousava numa cripta à margem do Douro. Pior! Teve que seguir protocolos, subir a rampa do atual palácio de despachos, suportar incontinências e se deparar com o atual governante e seu séquito. Que patuscada! Haja coração!

Que troça fizeram com o coração de Dom Pedro! Mas há quem diga que ouviu em bom som, com algum sotaque, lógico, a reação do coração de Sua Majestade no pé da rampa : “Ora, pois! E há quem diga que estultos, néscios, são os portugueses. Os brasileiros não têm mais nada a fazer? Deixassem-me em paz! Antes, enterrado morto, a experimentar cousa tão ridícula. Já não basta a urna apertada em que estou, que nem eletrónica é? Não é à toa que tantos brasileiros, como eu, preferem viver em Portugal de uns tempos para cá”.