Desde que comecei a escrever alguma coisa diferente de atas, ofícios e relatórios, que não requerem criatividade alguma, por vezes, sou levado à máquina de escrever por centelhas de pensamentos e imagens banais que surgem no caminho.

Ontem, foi o caso. Lá estava eu, no primeiro dia do mês de agosto de dois mil e vinte e dois, às sete horas e trinta minutos, na área de serviço do meu apartamento, preparando o terreno para Cuscuz começar o dia. O danadinho é um reloginho – o que me leva a crer que é maltês, sim, mas sua mãe pulou a cerca e teve um affair com um suíço. Vou direto ao assunto: Cuscuz teria que fazer suas necessidades sobre Rodrigo Maia.

Explico. Normalmente, quando não estou com pressa, procuro uma página de jornal inspiradora para Cuscuz, como uma foto ou um discurso do Presidente da República. Mas dessa vez surgiu o filho do ex-prefeito César Maia e ex-presidente da Câmara dos Deputados. Era uma entrevista ao Globo que tinha me surpreendido pelas dimensões do ego do entrevistado.

Lembro-me que há algum tempo, o ex-ministro do STF e da Defesa, Nelson Jobim, referiu-se a Rodrigo como “guri de merda”. Mas o mais surpreendente é como ele, que não estudou nem teve a história do pai, sustenta-se no cenário político. Herdou uma das capitanias da política brasileira e prosperou, a ponto de, quando perguntado sobre seu futuro político, ter dito que não queria ser senador, pois o Senado era uma Casa muito aborrecida.

E Maia arrematou seu depoimento comparando-se a um piano de cauda num caminhão de mudanças, ou seja, grande demais para qualquer cargo que não fosse, talvez, digo eu, de um chefe de Estado – posição difícil para quem não tem voto ou não é capaz de dar um golpe.

O fato é que a página das capitanias hereditárias e da política do compadrio no nosso arremedo de República nunca foi virada. Continuamos a eleger os filhos dos coronéis, os garotinhos e garotinhas ou os guris e gurias adjetivados por Nelson Jobim. Mas não são pianos valiosos a transportar, longe disso. No máximo, tubas desafinadas num Fusca enguiçado que, infelizmente, empurramos ladeira acima.

P S Para quem tiver curiosidade, transcrevo parte da coluna da jornalista Cristiana Lobo, falecida no ano passado, que conta o episódio do “guri de merda”, em outubro de 2007.

“Foi bem pior…

sex, 26/10/07

por Cristiana Lôbo

O entrevero entre o presidente do DEM, Rodrigo Maia, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, no jantar oferecido pelo senador Demóstenes Torres, foi bem pior do que se falou. Se a turma do deixa-disso não entrasse em campo, os dois poderiam ter ido às vias de fato – afirmaram alguns dos presentes à festa.

O diálogo áspero começou com o ministro Walfrido Mares Guia. Sabendo da irritação de Rodrigo Maia com as conversas da senadora Rosalba Ciarlini (DEM-RN) com o governo, Walfrido disse que não havia nada de mais, nada de assédio, mas que, quando ele, Maia, quisesse conversar, que estaria à disposição. Rodrigo Maia disse o governo estava jogando pesado contra oposição. Foi quando Nelson Jobim, que conversava ao lado com o senador Jarbas Vasconcelos, entrou em campo para tentar equilibrar a conversa.

– Mas o seu partido também publicou uma nota indelicada comigo – começou dizendo.

A nota, com o título “O Canastrão e a Sucuri”, estava veiculada no blog do DEM e Rodrigo Maia disse que aquilo era feito por jornalistas contratadas pelo partido e que não censurava notícias. O clima esquentou quando Maia disse, ainda, que o governo estava insistindo em cooptar parlamentares do DEM, e citou que o Advogado Geral da União, Antonio Tófoli, havia dito no Supremo Tribunal Federal que o DEM iria ser “riscado do mapa”.

– Isso não é papel de um Advogado-Geral da União – disse Maia, já bastante irritado.