
A primeira vez que fui a um restaurante a quilo foi em Rio das Ostras na década de 1980. Já conhecia os bufês, mas pagar pelo peso da refeição era uma novidade e lá fomos nós, eu, contrariado, porque havia fila. Mas os pormenores foram tão extraordinários, que os reservarei como sobremesa desta crônica.
Atualmente, com poucas exceções, não gosto de restaurantes a quilo. Além da privação do atendimento por um garçom, seja ele simpático ou francês, nunca sei direito o que escolher. São tantas opções! Afora isso, para comer uma entrada, um prato principal e a sobremesa é preciso pegar a fila três vezes – um anticlímax para o meu apetite.
De todo modo, esse tipo de restaurante tornou-se incontornável para quem trabalha fora, mesmo com suas filas e caras feias que surgem quando é preciso avançar e dar uma olhada geral para planejar o prato. “Eu não estou furando a fila! Só quero ver se tem bife à milanesa”.
Passado um tempo, já um iniciado, desenvolvi uma técnica para não voltar à balança. Divido o prato em três territórios: um canto para a entrada, o meio para a peça de resistência e o outro canto para sobremesa, tomando cuidado para não misturar os vizinhos – o que sempre me transporta à minha primeira vez em Rio das Ostras. Vamos lá!
Os pratos eram de vidro, cor de geleia de mocotó. Havia um casal na nossa frente. A mulher segurava o prato com a mão esquerda e servia-se com a direita. Uma bolsa enorme pendurada em seu braço mergulhou duas vezes na panela do feijão. Seu companheiro, com uma capanga embaixo das axilas, servia-se com mais desenvoltura. Primeiro, colocou duas colheres generosas de lasanha, seguidas de feijão, polenta frita, uma coxa de frango e arroz à grega.
Eu não conseguia tirar os olhos daquele monte que só fazia crescer. Ele deu mais dois passos e acrescentou uma camada de maionese de batata e um bife à parmeggiana. E, tal qual um grand finale, sobre aquele Monte Kilimanjaro de comida, despejou uma concha farta de bobó de camarão, que fez seu prato parecer o vulcão Krakatoa, na Ilha de Java, em plena erupção. Aturdido e sem imaginação, não fui além de um linguado grelhado com batatas cozidas e um discreto molho de alcaparras.