Escrevo sobre a magia da dança. Sim, além de ter estudado Francês, herdei dos meus pais o gosto pela dança. Mas nunca tive aulas de piano nem de bordado – o que completaria aquele estereótipo inexorável – apesar de que gostaria de saber costurar – ao menos fazer bainhas sem usar esparadrapo.

No feriado de Corpus Christi, Bebel e Gico nos deram de presente as entradas para assistir a duas novas coreografias do Grupo Corpo, que, como sempre, é emoção em movimento. Primavera e Gira são os nomes dessas duas obras de arte, sobre as quais ouso falar.

A Primavera veio primeiro, harmonizada pela música do duo Palavra Cantada, de Paulo Tatit e Sandra Peres, velho conhecido nosso desde a infância da Cecília. Um encanto que combina os movimentos de bailarinos impecáveis, boa música, figurinos lindos e a tecnologia a serviço da arte, com projeções no fundo do palco que completam a mágica. Será que estão por vir coreografias das outras três estações do ano? Tomara que sim.

Gira veio depois do intervalo, grave, em preto e branco. Espetacular! Uma espécie de transe, de evocação de espíritos sobre a cena. Os bailarinos parecem impulsionados por uma força sobrenatural. Impressionante a encenação! Eles estão o tempo todo no palco, mas por vezes invisíveis. A música é pesada e não facilita os movimentos – ao contrário. Daquelas que eu não ouviria fora de um espetáculo. Mas tudo cai bem quando passa pela criação dos irmãos Pederneiras e sua trupe.

Na década de 1980, aproveitei bastante as grandes temporadas do Theatro Municipal. Lembro-me das apresentações da Companhia do Século XX, do Maurice Béjart, do Ballet de Sttutgart, com a brasileira Marcia Haydée, do Balé da Ópera de Hamburgo… Coreografias memoráveis, como a do Bolero de Ravel. Essas temporadas se perderam no passado, mas o Grupo Corpo resiste no presente às incontáveis dificuldades de se viver da arte no Brasil – e não é por falta de muitos talentos.

Assistir a um espetáculo do Grupo Corpo faz bem à alma. Mas adoraria vê-los interpretar também algumas músicas manjadas – populares ou não, de Pixinguinha a Stravinski. Que tal a Sagração da Primavera? Além, lógico, de Romeu e Julieta. Nem posso imaginar o que os talentosíssimos mineiros fariam com a peça de Shakespeare musicada à perfeição por Prokofiev. Só aposto que seria bom demais da conta, como a combinação da melhor goiabada com o melhor queijo.