Foi com surpresa que li sobre o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). O neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho trocou o jaleco de médico pela fantasia exclusiva dos imortais, o fardão. Tico e Teco, meus neurônios favoritos, imediatamente iniciaram um debate. “É um médico notável. Por que da surpresa?”, disparou Tico. “Mas é um médico! Para isso existe a Academia Nacional de Medicina”, redargüiu Teco. Pergunto-me qual dos dois está certo. Será que sempre cabe mais um (amigo) nesse tipo de grupo? Posso sonhar com a Academia Brasileira de Música? Tenho um conhecido lá. Com meus dois indicadores, interpreto com brio a valsa Chopsticks – composição popularmente conhecida como Bife.

Comento o caso com as meninas na mesa do almoço. Falo do chá das quintas e da sede da ABL, uma réplica do Petit Trianon – palacete erguido em Versailles por Luís XV para Madame de Pompadour, uma das suas favoritas. Digo que a Academia fica na Avenida Presidente Wilson, no Castelo, e minha filha, estudante de Medicina, me interrompe: “Que castelo, pai? E para que serve essa p*#@…?” “Coisa, Cecília, coisa! Ou melhor, instituição!” Falo da importância da preservação da nossa memória escrita, dos grandes artistas das letras, mas ela já não presta mais atenção, soltando um “ridículo” aqui e ali. 

Após a sobremesa, digna de nota: doce de pera com sorvete de creme e calda de maracujá, penso com meus botões e indago-me se a futura médica, quiçá futura imortal, teria razão. Esses títulos, esses trajes, essas grifes, esses clubes fechados não seriam realmente ridículos e cafonas? Sem falar da ausência de tantos nomes nessa academia, sobretudo, de tantas escritoras não erigidas à categoria de imortais: Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Cora Coralina…

Mas Tico ressurge com um raciocínio irrefutável. Meu neurônio amistoso pondera que os médicos, sobretudo, neurologistas, psiquiatras e, como é o caso, neurocirurgiões, conhecem como ninguém os mecanismos da criação e as sinapses que movimentam as penas e as teclas dos homens e das mulheres das letras. 

Para a Ciência não há segredos e me vem à cabeça o Dr. Simão Bacamarte, célebre personagem de O Alienista, de Machado de Assis, que sabe separar o joio do trigo e o louco do são, internando os mentecaptos na Casa Verde, a Bastilha de Itaguaí. Alienistas – e médicos em geral – têm fé pública.

Teco, malvado por natureza, indisposto a lançar mais argumentos, faz que concorda com seu antagonista e me consola: “Mauro, aquele seu vizinho, exímio redator de atas de reuniões de condomínio, terá que esperar outra vaga! Há quem diga que o acadêmico José Sarney foi mordido por um marimbondo de fogo, mas, hoje em dia, nunca se sabe, pode ser fake.”