
É comum que se faça do silêncio uma estratégia pessoal. Não me refiro ao silêncio -prece nem ao silêncio respeitoso. Trato de discussões. Por que falar? Por que se revelar? O que se ganha? Quando eu era muito novo, um primo me disse que eu falava demais – o que foi determinante para alguns anos de terapia. E ele devia estar certo porque, mesmo pagando para falar, eu era interrompido pelo tempo lógico das sessões.
Além de seguro, o silêncio pode ser sofisticado. Intelectual-raiz não fala. Franze a testa, acerta os óculos e se mantém calado (ou calada). Julga, mas não profere o veredito. Vá que o encanto da sua inteligência superior se desfaça se não escolher as melhores palavras e a sua fala não faça sucesso. O silêncio na sua ambivalência garante ao silente a possibilidade de depois dizer que sempre esteve no lado “certo”. Falar alto, então, além de tolo, é deselegante, pois dá um tom emocional que deve ser evitado a todo custo.
Muitos se lembram que o então rei da Espanha, hoje, Rei Emérito Juan Carlos, chamou a atenção do mundo quando, numa conferência internacional, rompeu o silêncio, pedindo que o presidente Chaves da Venezuela se calasse. Que gesto! Que majestade! Permitiu-se abandonar a discrição monárquica para interromper a fala inoportuna do presidente de uma ex-colônia. Mas Sua Alteza jamais quebra o protocolo do silêncio para falar de suas dívidas com o Fisco do próprio país e do empréstimo contraído com amigos dos Emirados Árabes, onde vive. E eu que pensava que o Rei da Espanha morasse e cultivasse a nobilíssima prática do silêncio na Espanha…
Quanto aos que pretendem postular posições de destaque na sociedade, se aventurar no mundo da política e sair sempre bem na foto, o silêncio, além de crucial, deve ser radicalmente seletivo. Jamais falar o que pensa, sem a certeza de que é o que se quer ouvir. E lá estou eu falando, escrevendo demais… Nunca aprendo. Não é de bom tom. Sem contar que, ao falar escrevendo, os riscos de um erro de concordância, de um acento incorreto ou de uma locução mal colocada aumentam muitíssimo e ficarão gravados no papel ou na tela. Falar sem registros é menos mal e menos mau: “verba volant, scripta manent” ou “palavras voam, escritos permanecem”. Portanto, calar-me-ei. Franzo a testa, pigarreio e encerro. Qual!