
Meu primeiro emprego foi numa firma de engenharia. Aos 17 anos, minha função era relacionar e somar os “lançamentos com traço” do Livro Caixa. Isso significava listar as despesas que não se encaixavam em nenhuma classificação do tipo “material de escritório”, “tributos”, “pagamento de pessoal” e recebiam um traço ao lado do débito.
Era essencial que eu não descuidasse do papel carbono, pois uma cópia do meu trabalho seguiria para o contador fazer os ajustes e os balancetes – tarefa que sempre atrasava e era motivo de gritarias mensais no escritório: “Este guarda-livros incompetente deveria se chamar perde-livros”.
Um dia, me dei conta de que toda semana havia xis cruzeiros lançados como “Embalo do Urubu”, seguido de um traço. Embalo do Urubu? Seriam doações para um bloco de Carnaval? Mas não enxergava os diretores da empresa como foliões.
Os lançamentos se repetiam e minha curiosidade aumentava. Até que um dia perguntei à minha chefe, que respondeu:
“Ora, Mauro, Embalo do Urubu é o que pagamos ao Metralha, o bicheiro do Largo, para não termos problemas com segurança. Já reparou que não trancamos o portão?”
Quanta ingenuidade a minha! Lógico! Estava tudo certo. Aquele cara simpático que comandava aquele jogo simpático nos prestava um grande favor e nada mais razoável do que fazer-lhe contribuições semanais.
Eis que tudo isso surgiu na minha memória quando li a reportagem sobre a prisão, nesta semana, de agentes da polícia, dentre os quais, uma delegada que tinha um cargo na secretaria de esportes da prefeitura de Eduardo Paes.
Só pode ter havido um engano! Desde quando é crime ter R$ 1.700.000,00 guardados em casa? Essa senhora é comendadora da Cidade. Recebeu uma medalha de um vereador, com base eleitoral na comunidade de Rio das Pedras, que, infelizmente, foi assassinado.
São notícias falsas para todos os lados. Onde será que vamos parar? E ainda dizem que as tais prisões têm relação justamente com o simpático jogo do bicho! Zebra? Cobra? Macaco? Qual é o melhor palpite para hoje? Como não tem urubu no jogo do bicho, o meu é avestruz, que enterra a cabeça para parecer um arbusto e, assim, escapar dos predadores. Socorro!