Nunca consegui gravar a letra de uma música. Talvez, porque muitas palavras, muitas rimas harmonizem bem com uma mesma melodia. “Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro…” Ou seria minha alma dança? Ou minha alma samba?! Este é o problema! Até o hino do Flamengo me confundia. Eu achava que era “mas coitado no Fla-Flu” no lugar de “mais cotado no Fla-Flu” – uma heresia, diriam alguns… Seja como for, os sons comportam muitas versões de letras. A recíproca não é verdadeira.

E o hino nacional brasileiro?! Que labirinto! Só acerto o “pátria amada, idolatrada, salve! Salve!” e desde pequeno, nas solenidades em que é cantado, limito-me a mexer a boca. Assim mesmo, com certo receio de lerem os meus lábios e constatarem que eu troco a parte um com a parte dois. Daí, preferi-lo tocado ao piano. Emociona-me muito mais. Inclusive, na forma da Fantasia Triunfal de Gottschalk, um pianista e compositor norte-americano do século XIX, morto no Rio, vítima de malária. Ele fez grande sucesso, tocando a sua variação sobre o nosso hino para o Imperador Pedro II.

Você sabia? Certamente, não. A menos que tivesse ouvido na Rádio Relógio, patrocinada pela Galeria Silvestre, que, depois do sol, ilumina seu lar. Mas nada de saudosismos melancólicos! Nada disso existe mais. Li sobre Gottschalk no Google, e também foi lá que conferi a letra do Samba do Avião, obra prima do maestro Tom Jobim, que, diante de tempos tão sombrios, eu alteraria para que visse o Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara após a decolagem do meu avião para um Rio de Janeiro que não existe mais. Aperte o cinto, vamos voar.