
As notícias ruins nossas de cada dia estão longe de provocar o barulho que deveriam na sociedade brasileira. Assistimos calados à República ser tomada na mão grande – ou manu militari, para usar uma expressão mais elegante. Uma nota de repúdio aqui, postagens nas redes sociais acolá e seguimos a passos largos para o abismo.
Mas até que pincei uma boa notícia nesta semana: a prefeitura do Rio proibiu o uso de caixas de som nas praias. É lógico que, pelo Twitter de Elon Musk, algumas vozes “progressistas” e politicamente corretas trataram a medida de elitista, contra o funk e contra as manifestações populares.
O atual prefeito do Rio, com suas 27 secretarias, 13 empresas públicas, 10 autarquias/fundações e oito subprefeituras, administra muito mal a Cidade e abandona seus problemas mais cruéis. Mas essa medida a favor de algum silêncio em alguns lugares merece aplauso. Inclusive, porque, do contrário, assistiríamos a um suicídio coletivo dos cardumes que vivem na costa carioca. Tainhas, robalos e dourados não resistiriam à proliferação das caixinhas de som nas praias, misturando funk, pagode, música sertaneja, erudita, eletrônica, forró, axé e ópera.
E lembro aqui que os fones de ouvido existem justamente para que o prazer individual não ultrapasse limites em espaços coletivos. Imagine uma viagem para qualquer lugar em que cada passageiro ouve o que deseja nessas caixinhas diabolicamente geniais, que substituem as caixas de som enormes do passado que serviam até de mesas ao lado do sofá? Antes uma boa morte, diria novamente a minha avó.
Vou além! Mesmo quando as músicas tocadas não se misturam a outras e são de boa qualidade, volume e freqüência fora do razoável também soam como tortura. Quem conhece o interior de São Paulo, sabe que o caminhão do gás se aproxima junto com os acordes da bagatela para piano número 25, em lá menor, de Beethoven: Für Elise, Pour Elise ou Para Elise. Não duvido que, se tivesse morado em Piracicaba, ao cabo de alguns anos, o gênio alemão tivesse furado os próprios tímpanos. Ludwig não teria merecido. Elise tampouco. Nós também não!