Acredito em fantasmas. Alguns escrevem magistralmente, mas não assinam. Outros têm talento extraordinário para a música e para a pintura, mas não se revelam ao público. Em geral, aos talentosos artistas anônimos faltam sorte, dinheiro e oportunidade. Mas não se mostrar também pode ser uma opção pessoal para evitar a exposição à crítica, sobretudo, num mundo de juízes tão despreparados quanto insensíveis.

Nas letras, os que ocultamente chegam aos leitores são conhecidos como ghost-writers, a serviço dos muito vivos que se comprazem com seus nomes publicados, sem qualquer embaraço pelo reconhecimento de um talento que não têm, que vem, digamos, do “Além”. No mundo da música, os fantasmas camaradas fazem play backs, como se vê no delicioso filme Cantando na Chuva. A louríssima Jean Hagen mexe corpo e lábios no palco, enquanto a discreta Debbie Reynolds canta no tom certo atrás das cortinas. Essas cenas que ilustram os primórdios da dublagem são impagáveis, mas existe um lado triste da história da arte, de artistas que vendiam a autoria das suas obras pela subsistência.

O Fantasma da Ópera ilustrou e popularizou a necessidade de uns aliada ao desvio de caráter de outros – e que nada tinham de paranormal. Numa das versões para o cinema, o protagonista é um músico tão talentoso quanto miserável, que precisa vender suas composições. Mas uma delas lhe é muito cara. Ele se arrepende do negócio feito, vai à gráfica onde estão sendo impressas as partituras atribuídas a um maestro sem escrúpulos e provoca um incêndio. Queima-se, fica com o rosto transfigurado e passa a habitar nos subterrâneos da Ópera, de onde, mesmo vivo, assombra as plateias.

Num mundo em que a ética e a honestidade fizessem sentido, não existiriam pinturas e esculturas falsificadas, escritores falsos, mímicos fazendo-se de músicos ou, ainda, arquitetos, jornalistas, políticos, gestores e tantas outras eventuais celebridades que não dessem crédito ao talento genuíno ou à obra coletiva. Uma criação anônima pode ter um valor extraordinário, mas não sei como o criador “feique” consegue dormir sem ouvir as correntes da sua consciência se arrastando.