
Quando falo da morte lá em casa, a briga é feia. Isso porque costumo brincar dizendo que já não se morre mais como antigamente. Sou interpretado como um suicida ou, pior, como um homicida potencial. Portanto, antes que eu morra e ganhe um epitáfio desairoso, venho a público dizer que não é nada disso. Não recomendo nenhum atalho para o embarque desta para a melhor, mas é preciso tomarmos algumas cautelas com o avanço prolongado da idade. A questão é muito pessoal e só posso falar sobre o que espero para mim. Desejar saúde é muito óbvio, mas até isso é relativo. Determinadas doenças atenuam dores maiores, como a de perder a consciência em momentos muito duros.
O ponto é que, ao mesmo tempo em que a expectativa de vida cresce exponencialmente, multiplicam-se exemplos de como é difícil envelhecer. As aposentadorias do INSS estão aí para provar. Além disso, dilatado o nosso tempo, as tragédias pessoais e coletivas aumentam, tanto que a todo momento escuto: “vivamos um dia de cada vez”; como se os seguintes fossem assombrosos. Outras falas muito ditas são: “2018, não vai deixar saudade” ou “Felizmente, 2019 está chegando ao fim”; “2020: um ano para esquecer”; “Ora, pior que 2021, impossível”. Ou seja, não temos tido bons réveillons e a esperança no futuro anda em baixa.
“Tristeza não tem fim, felicidade sim”, cantava o poeta… Tem saída para isso? É possível que a reinvenção pessoal seja um caminho para viver tanto e melhor. Afinal, se uma bala perdida não nos alcançar, teremos duas vidas pelo preço de uma. Eu, por exemplo, como não vou morrer antes de 2062, poderei fatiar os 40 anos que me restam ao meu bel prazer. Já me ocorreu cometer determinados crimes para o bem da humanidade, levando em conta que a pena máxima de prisão no Brasil é de 30 anos. Ainda teria dez anos para curtir a vida e a liberdade a partir dos 90… Estudar piano também já esteve nos meus planos, assim como aprender a velejar, a esquiar e voltar a subir a Acrópole, nem que seja de andador. Ou que tal fazer uma cirurgia para a transformação de sexo? Ok! Seria radical e doloroso, mas ser mulher por 40 anos, depois de 60 como homem, pode ser uma experiência e tanto. Daqui a 30 anos, aos 90, eu saberia o que é ser uma balzaquiana. Mas só faria isso com as minhas últimas quatro décadas se meu pai fosse militar. Sempre fantasiei com aquela boquinha generosa da Viúva pagando pensões para as filhas dos gandolas…
E como as pessoas precisam de tempo para saber o que fazer com ele, encerro com um diálogo que tinha com minha mãe frequentemente. Nós amávamos viajar e costumávamos brincar sobre um eventual desastre aéreo. Nininha dizia que o seu maior medo era que o avião caísse na Amazônia e que ela sobrevivesse à queda. Morria de medo de cobra, coitada! Eu já costumava dizer que qualquer queda só poderia acontecer na volta. Seria um consolo não ter que pagar a fatura do cartão de crédito.
A propósito, o título deste texto é uma frase que minha avó Aurora repetia sempre que surgia a hipótese de experimentar uma situação desagradável: “antes uma boa morte…”. Eu, para não apanhar em casa, adaptei as sábias palavras da vovó para “antes um tratamento de canal”. Tem coisa pior?! Com certeza, tem.