
Parece que foi ontem a minha estreia no teatro. Foi na Escola Barão de Itacurussá. Eu tinha seis ou sete anos e interpretei uma grama. Sim, uma grama. Vestido de papel crepom verde, eu fazia parte do cenário e isso marcou minha vida. Eu não precisei decorar nenhuma fala. Só precisava levantar os braços e fazer um movimento semelhante ao de bater palmas para pessoas surdas. A apresentação foi um sucesso e fomos muito aplaudidos! Mas se os protagonistas tivessem falhado, errado suas falas, nem mesmo a grama teria escapado das críticas. O ser humano é cruel. Quiçá eu teria sido pisoteado.
O teatro, com seu bom esprit de corps, sempre me encantou e fazia parte do currículo do CapUERJ (na época UEG), onde estudei. Mas fiz vestibular para Economia e mais tarde para Direito. Tudo errado, como acontece com a esmagadora maioria da juventude, empurrada para carreiras que garantam apenas a sobrevivência ou o luxo material. Tivesse eu seguido a minha primeira vocação, poderia ter feito sucesso nos palcos e, no topo do estrelato, quem sabe, interpretado papéis desafiadores, como o de uma samambaia ou de uma espada-de-são-jorge. Ser ou não ser uma bromélia, eis a questão.
Mas este assunto hamletiano aflorou do divã semanal das minhas crônicas depois que observei um fato determinado, da capacidade de certas pessoas atuarem magistralmente fora dos palcos. O gênero que fazem, aquelas caras e bocas, enfim, a dissimulação mais desavergonhada. E, lógico, o papel escolhido por esses “artistas” é sempre o do bonzinho, do paladino da moral e dos bons costumes. Falam mal de todo mundo pelas costas, são um poço de insensibilidade, mas, em público, beijam as criancinhas que mandariam para o forno com cebolas e batatas.
Em época de eleições, então, os bonzinhos-candidatos mostram-se ainda mais perfeitos e incorporam seus personagens. Obviamente, jamais atuarão como grama. Os coadjuvantes são sempre os outros e o espetáculo se repete. “Al Pacino da Zona Oeste pede o seu voto!” “Escolha Sophia! A Loren que vai botar ordem na Pavuna” “Vote Bonzinho! Ele passa a perna com carinho.” Portanto, teatro, recomendo, só no teatro. Não se engane com as atuações fora do proscênio! Até as gramas se tornam escorregadias e perigosas quando não são devidamente podadas no interesse do grupo. E desconfie dez vezes mais das pessoas que se dizem do bem. Bem me quer coisa nenhuma.