
Imaginava escrever sobre o Carnaval, mas a guerra na Ucrânia não dá margem a falar das bem humoradas batalhas de confetes e serpentinas ou descrever lança-perfumes e fantasias.
Sem muito talento para dividir e cooperar, a raça humana não se cansa de brigar pela propriedade das coisas. Inicialmente, disputavam-se os territórios por razões de sobrevivência. Com o tempo, a luta pela vida deu lugar ao desejo de possuir, de possuir muito e à ganância. Mas o direito à propriedade não é absoluto e nem deve ser considerado um direito humano. Em tese, é uma trégua posterior a uma briga de foice. Mas nem mesmo a cultura das leis é capaz de inibir o instinto estúpido e cruel dos líderes da nossa espécie, de nacionalismos patológicos e da natureza das economias hegemônicas em suas mais variadas roupagens.
A nova tragédia ucraniana é mais um exemplo dessa bestialidade incontida. Assistimos a outra guerra concebida por uma cúpula que jamais iria para o front das batalhas. E o pior é que suas consequências podem ir muito além do sofrimento das populações envolvidas diretamente. Os efeitos colaterais de uma guerra não precisam de passaporte para viajar pelo mundo. Lembremo-nos do acidente na Usina de Chernobyl, na então Ucrânia soviética. A radiação não respeitou as fronteiras políticas.
Nessa nova disputa entre as potências do planeta, a Ucrânia é a bola da vez. E a única coisa boa que isso me lembra é o livro Futebol e Guerra, do jornalista escocês Andy Dougan. Relata detalhes de partidas de futebol espetaculares jogadas nesse mesmo país sob o domínio nazista durante a Grande Guerra de 1939-45. Ucranianos torturados e esfomeados, alguns, ex-jogadores da equipe do Dínamo de Kiev, jogaram futebol contra seus carrascos da época. Momentos emblemáticos para quem já tinha perdido tudo driblar os oficiais da SS, impedir um ataque alemão e até marcar um gol.
E agora? Lutar e jogar contra quem? Torcer por quem? Sem dúvida, sou sempre pelos oprimidos e contra a covardia. Portanto, que a Rússia tire logo o seu time de campo! Que Putin e a OTAN vão para o Inferno! Que os ucranianos comuns tenham um mínimo de paz! A palavra dínamo, que dá o nome à equipe de futebol da capital da Ucrânia, deriva do grego “dynamis”, que significa força. Força, Kiev! Torço por uma zebra!
Muita força pra Kiev! Mesmo assim, quero continuar acreditando na humanidade.
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