
Não tive o prazer de conviver com o Jabor. Aliás, como uma “pessoa comum”, não convivi nem convivo com muitas das estrelas que iluminam os caminhos e apontam as bifurcações. Na última terça, quando vi sua fotografia estampada no site de um jornal, antes de atentar para o texto, disparei: “Jabor morreu?!” Um colega de trabalho querido respondeu que sim, mas que, para ele, Jabor estava morto desde 2006. Ora, por quê?! Porque se tornou crítico e ácido com lideranças de esquerda que comandavam o país na época. Que bobagem!
Não cabe relacionar as virtudes do Jabor – nem sou habilitado para tal. Também não vou ressalvar o que, quando o ouvia ou lia, discordava. O essencial é que ele elevava o nível de qualquer debate, como tantos outros interlocutores, formadores de opinião, sejam jornalistas, artistas, políticos, filósofos ou pessoas comuns, vivos ou mortos, de esquerda, de direita ou sem rótulo. Quando há boa fé e um mínimo de honestidade intelectual, demolir ideias pode ser bastante construtivo.
As unanimidades e o patrulhamento ideológico não são saudáveis e, diante do protagonismo dos idiotas que governam o país na atualidade, devem ser evitados a todo custo entre as pessoas normais. Carluxo? Bananinha? Rachadinha? Frias? Aquele da Fundação Palmares? Pelo amor de Deus! Seja você crente ou ateu, temos um adversário comum e repugnante a combater: a burrice armada, aliada aos inescrupulosos de sempre, que mudam de lado ao sabor das suas conveniências.
Portanto, não é porque Fulana disse algo em determinada época, que o que diz e defende hoje não deve ser levado em conta. Não é porque Beltrano escreve no jornal tal que não deve ser lido. Já ouviu algum bancário pedir demissão porque o banqueiro mete a mão no bolso dos outros? Do jornalista que recusa uma coluna diária porque não gosta do dono do jornal? Do ator que recusa o papel do bandido porque é mocinho? Francamente, diria outra colega, não é por aí. Basta sermos éticos e que não façamos ao outro aquilo que não seria justo conosco.
Como outros que se foram, Jabor vai fazer falta. Não tomávamos chopp no Bracarense, assim como nunca almocei com Roberto Campos ou jantei com Vargas Llosa. Nunca telefonei para Paulo Francis, tomei poire com Ulysses, pedi conselhos financeiros à Miriam ou falei de gatos com Cora. Teria sido um prazer ouvir pessoas brilhantes do outro lado da mesa, assim como agradeço poder ler Dorrit, Vera, Elio, Roberto, Luís Fernando, Bernardo, Eliane, Monica, José Eduardo, Antônio, Flávia, Léo, Nelson, Fernando, Murilo, Paulo, José, João, Chico, Maria, Ana, você e tantos outros. “Amigo ouvinte”, diria o Jabor, há sempre muita coisa boa para concordar ou discordar num outro patamar, hoje, seguramente na planície pois, no planalto, por enquanto, são só horrores.