Foi-se o tempo em que saíamos do trabalho e ele não vinha atrás. Quando muito, a chefe ou o chefe telefonavam para nossa casa, mas sem nenhuma garantia de contato. Existiam os genuínos happy hours…

Hoje, tudo mudou. Os direitos trabalhistas estão fora de moda. No entanto, foi aprovada na Bélgica uma legislação que trata do direito à desconexão, da garantia de que o empregado não seja alcançado pelo patrão em determinados horários via smartphone.

Inicialmente, essa “off-line law” se limitará aos servidores públicos belgas, mas a intenção é estendê-la para todos os “mortais”. Chegará ao Brasil? Tico me pergunta. Há quem acredite que nosso país tenha um pouco da Bélgica… Mas Teco acha difícil. Na semana passada, um imigrante congolês, cujos ancestrais foram colonizados justamente pelos belgas, teve o seu contrato de trabalho no Brasil encerrado por tortura e morte.

Penso nas aposentadorias. Elas seriam uma espécie de direito à desconexão de longo prazo… Permanecermos conectados pelo resto de nossas vidas é impensável. O excesso de trabalho, a falta de recolhimento e privacidade, somados às más notícias em tempo real atormentam e deprimem.

Veja que até o Príncipe Harry admite sofrer de burnout, de esgotamento, pela falta de um tempo para si. Segundo li, o filho de Diana e Charles não consegue conciliar o trabalho com as funções de pai. De minha parte, considerando as funções de pai de uma estudante de Medicina em universidade privada, sinto-me um pouco como Harry. Pelas minhas contas (e para pagá-las!), permanecerei na ativa até os 75 anos.

Obviamente, se não tiver ido desta para a melhor. Mas, como não se morre mais como antigamente, acho que chegarei, sim, on-line, aos 75 – a idade limite para servidores públicos se aposentarem – carinhosamente chamada de expulsória. Diga-se de passagem, uma enorme vantagem do serviço público, pois a “expulsória” da maioria das pessoas tem ocorrido bem mais cedo, pela vontade do mercado.

Outro fato a destacar é o de servidores que se aposentam bem antes da expulsória, na flor da idade. Alguns, até na semente da idade, como os de farda, que contam o tempo para a aposentadoria desde o Colégio Militar. Isso, se o Congresso não aprovar uma lei que determine que a contagem retroceda ao primeiro dos nove meses que serviram ao país mergulhados nas placentas de suas progenitoras.

Mas isso é assunto para os atuários, aqueles que cuidam dos cálculos dos sistemas de aposentadoria de todas as castas. A última, a casta dos “otários”, fica a cargo do INSS. Mas vou poupar o amigo e a amiga leitora de horas extras de depressão. Nada de perder mil e uma noites de sono com uma história tão antiga!

Sejamos gratos ao presente. No futuro, tudo pode piorar. A “responsabilidade” fiscal, o combate à inflação e as reservas cambiais poderão exigir novos cortes na renda dos brasileiros. Já se estuda até a equiparação da idade mínima para a aposentadoria à de Elizabeth II. Está ligado? A coroa está firme e forte, ralando e dando exemplo aos súditos, digo, colaboradores.