2022 também é ano eleitoral na França e lembrei-me de “Submissão”, de Michel Hoeullebecq. Na minha humilde opinião, não é um grande livro, mas o argumento é muito bom. Foi escrito em 2015, quando o presidente francês era François Hollande – a quem o autor concedeu um segundo mandato, até 2022. Hollande sequer concorreu, mas o tempo do livro é justamente o da sua sucessão. Emmanuel Macron nunca foi presidente.

Nas eleições imaginárias de Hoeullebecq, a candidata da extrema direita de sempre, Marine Le Pen, vai para o segundo turno com Mohamed Ben Abbes, um homem afável, não radical, de um novo partido, a Irmandade Mulçumana – uma incógnita que recebe o apoio dos demais partidos, do centro-direita à esquerda, para uma agenda supostamente moderada. E ele vence as eleições. Et alors? E aí?

Tangencio o spoiler e troco a ficção pela realidade – a das eleições presidenciais brasileiras. “Nada é tão ruim que não possa piorar” é um lema dos pessimistas que vem ganhando a adesão de realistas. “De onde menos se espera, daí é que não sai nada” é outra frase, de Sua Alteza o Barão de Itararé, que assombra. Mas uma coisa é certa: é impossível que exista algo pior do que o atual presidente da República! Sua reeleição equivaleria a ultrapassarmos o nono círculo do Inferno.

Todos os seus antecessores eleitos foram melhores do que ele. Nenhum é ou foi santo, mas um deles, infinitamente melhor, tem chances reais de afastá-lo. No entanto, há quem diga que haveria uma terceira, uma quarta, uma trigésima via mais viável, considerando a constelação de partidos no Brasil, e uma dessas alternativas é muito festejada. Não corresponde a um partido mulçumano, como na ficção francesa, mas seu candidato, ex-colaborador do Tinhoso, também toma o nome de Deus em vão e se coloca como uma espécie de juiz que sabe decidir quem deve subir ao Céu ou descer para o Inferno.

Pergunto: vale a pena arriscar o ballotage – a decisão no segundo turno – e dar fôlego ao capiroto?! Ou é melhor sermos terrivelmente conservadores e escolhermos logo aquele que já governou o Brasil por oito anos, com muitos defeitos, mas inegáveis virtudes? Em todos os sentidos, a vida para a maioria das pessoas era melhor ou pior do que hoje?! No primeiro domingo de outubro de 2022, precisaremos responder, pois a alternativa da omissão equivalerá a uma efetiva submissão. Alá nos proteja!