Com muito álcool gel e máscaras na bagagem, pegamos a estrada para ir a Campinas rever uma parte querida da família. Há muitos anos, não fazemos esse trajeto, que começa na indefectível Linha Vermelha – a cada dia pior. Às suas margens, avistamos amontoados de casas precárias, onde uma população imensa vive à espera de um milagre. Falta saneamento, falta espaço, sobram raios, trovões, enchentes e tiroteios.

Depois da Linha Vermelha, que tem o nome do ex-presidente João Goulart, outro ex-presidente dá o nome à nossa estrada, o Dutra. O primeiro engarrafamento surge na altura de São João de Meriti, em parte, por conta de motoristas que se recusam a usar a pista da direita. Se nada mudou nos 500 km adiante, nada nos atrairá para uma parada.

No meio do caminho, Aparecida do Norte espanta. A Basílica, destino importante de milhões de peregrinos, está quase desaparecida. Dezenas de prédios, quando não a escondem completamente, rivalizam com a altura do campanário. Existe até um teleférico que passa sobre a rodovia. A fé bem que poderia remover esses monstrengos ao redor. Seria o milagre da demolição.

Acelero, indignado, e dou de cara com um outdoor do Pastelão do Maluf, com a foto dele próprio, Paulo Maluf, olhando na minha direção com seu sorriso indecoroso. Cara de pau! A parada da Cometa de outros tempos vem logo depois e é uma nova filial do Grupo Frango Assado.

Taubaté, Caçapava, São José dos Campos, Jacareí se sucedem, nada convidativas. Paramos para botar gasolina e dá vontade de tomar café. Em São Paulo, deveria ser especial, mas só de ver que é servido em copos de vidro molhados, padrão geleia, desisto.

Depois de dois ex-presidentes, é a vez do Imperador D. Pedro I dar o nome ao caminho. Pela Via Dom, atravessamos os volumes mortos das represas que abastecem a capital e passamos por Atibaia – famosa pelo sítio do terceiro ex-presidente dessa história, que causa uma indignação enorme nos mesmos que se calam sobre a mansão dez vezes mais cara do filho do atual presidente da República. Mas nada de falar de política! O interior de São Paulo é um campo minado.

Enfim, sete horas depois de sair de casa, chegamos ao nosso destino. A recepção é calorosa. Sempre vale muito a pena reencontrar pessoas queridas! Mesmo sabendo do caminho de volta. Mas a ideia é fazê-lo ouvindo muita música, comendo biscoito de polvilho, sem deixar de parar em Aparecida para fazer uma promessa pela inauguração do trem bala.