No início da semana, ficamos sem luz em casa por 25 horas! Coisas da Light do século XXI, uma empresa moderna e eficiente, que emprega robôs com inteligência artificial para atender clientes humanos. No escuro, lembrei-me que na segunda metade do século passado faltava muita luz no alto da Tijuca e, invariavelmente, à noite. Com velas sempre à mão ou com lamparinas de querosene, minha mãe nos reunia na sala para passarmos o tempo brincando.

Uma das nossas brincadeiras preferidas era “amigo ou amiga”. Um de nós pensava numa coisa e a primeira pergunta, crucial, era sobre o gênero do objeto. As respostas seguintes só podiam ser sim ou não. Para adivinhar geladeira não demorava nem um minuto. “Amigo ou amiga?” “Amiga”. “Gela?” “Sim”. “Geladeira!” “Acertou!” Podíamos escolher pessoas também, no lugar de objetos, mas às vezes dava briga. “Ela é bonita?” “Não” “É Fulana” “Errou! É Beltrana.” “Não vale! Beltrana é bonita!” E se o padrão de beleza por si só é um problema, imagine se entrassem em jogo as questões que envolvem o gênero das pessoas, à luz do que finalmente se discute com mais vigor recentemente?

Curiosa essa nossa cabeça… Faltou luz, lembrei-me da brincadeira de “amigo ou amiga” e cá estou, entrando num tema complicadíssimo, com a superficialidade que meu conhecimento e a restrição do tamanho do texto impõem. Apesar de compreender a essência do movimento LGBTQIA+, custo a gravar o que representa a sigla, que requer uma cola: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexo, Assexuais e o sinal “+” , indicativo de que como é grande o espectro das possibilidades de orientação sexual e identidade de gênero.

Confesso que não gosto muito dessa história de falar presidenta ou de ser compelido a acrescentar o “todas”, se falo de todos que compõem uma audiência multigênero. Todes, definitivamente não uso, mas respeito! Trata-se de uma questão de tentar empatar um jogo muito desequilibrado e injusto, da submissão das mulheres, da homossexualidade ainda como crime em alguns países e da resistência e repressão a identidades diferentes. Portanto, um gol de mão aqui ou ali ou determinados exageros não representam maiores problemas – cabe respeitar.

Quanto ao tal joguinho da minha infância, de quando faltava luz, não deve existir fora da memória de muito poucos. A rigor, nunca fez muito sentido ter uma amiga geladeira – o que me remete a um diálogo hilário da avó do Zé com a tia-avó. Uma era surda, a outra meio cega. Estavam na cozinha em frente à geladeira e havia uma tartaruguinha no chão. Tia Maria apontou para o bichinho e disse: “Ah, que gracinha, você dá comidinha a ela?”. A avó do Zé, sem paciência com a irmã, disparou: “Estás maluca! Onde se viu dar comida a uma geladeira?” Pois é… Loucura dar comida a uma geladeira… Mas tudo é uma questão, repito, de luz e de saber enxergar as diferenças. Minha mãe adorava essa história. Ah! Feliz Natal para todas, todos e… todes, ok!