
Na infância, sempre que eu não queria ir à escola, lançava mão do meu intestino, invocando a total impossibilidade de assistir a uma aula sentado na retrete. Minha mãe se condoía e não argumentava. Em compensação, dieta zero – o que me obrigava a avaliar bem o que seria pior: a escola ou a dieta. Sem falar que eu também não podia sair para jogar bola, por mais que dissesse que já estava bem. Mãe sabe.
Depois de adulto, confesso, cheguei a usar a mesma desculpa para tirar um dia de férias. Era bem melhor, não precisava fazer dieta, mas a culpa invariavelmente apenas me fazia chegar um pouco atrasado, louvando a ação de um comprimido de Imosec – uma espécie de rolha farmacológica. Se a jornada de trabalho se mostrasse insuportável, eu sempre podia voltar à carga para sair do escritório mais cedo.
Mas isso tudo pertence ao passado. As diarreias perderam o seu caráter impeditivo para estudar ou trabalhar. Estamos na era do ensino à distância e do home office. Verdade seja dita, para o patrão, pode ser até bathroom office, contanto que atinjamos a meta . A dele! Os laptops, tablets e telefones celulares garantem o cumprimento dos cronogramas, que não precisam falhar por conta de um revés intestinal. O mundo, portanto, não para mais nem para ir ao banheiro. À distância, é possível julgar, legislar e governar. Se a conexão estiver funcionando não há desculpa.
Só é importante não misturar os canais e ter muita atenção às imagens e sons liberados via Internet. De todo modo, nem todas as pessoas têm o privilégio do trabalho remoto. Existem atividades exclusivamente presenciais. De casa, não dá para trabalhar no caixa de um supermercado, numa farmácia ou dirigir um táxi. E não adianta a pessoa dizer que não vai ao trabalho por conta de uma dor de barriga. Essa é muito velha. Mas sempre existirá uma forma criativa para cabular, vadiar, vagabundear ou se proteger. Sugiro o espirro e a tosse! Em tempos de Covid, expectorar pode ser libertador. Afinal, quem é responsável não sai de casa para contaminar o sistema.