
Nós, daltônicos, sabemos perfeitamente que enxergamos o mundo com cores diferentes. O belíssimo – pelo que soube – contraste de flores vermelhas em folhagens verdes não é tão marcante, assim como os 51 tons de beige ou de cinza quase sempre passam despercebidos. Mas não é por isso que as coisas e as paisagens deixam de ter seus encantos. A beleza existe, só é diferente.
O daltônico respeita os sinais vermelho e verde, mas a convenção que estabelece se devemos parar ou seguir é reinterpretada. Se a luz estiver acesa na parte mais alta do semáforo, é o tal “sinal vermelho”. A luz de baixo, o tal “sinal verde”, e quando existe uma luz no meio, alguns metem o pé no acelerador, enquanto a prudência recomenda que apertemos os freios.
Portanto, discernir o certo do errado não é tão complicado assim. A honestidade dos propósitos é o filtro. Não é preciso ser diferente para compreender as diferenças e, mesmo quando duas cenas idênticas são pintadas com cores e traços distintos, se o propósito é honesto, elas irradiarão força e beleza.
Desde muito cedo, ouvia meu pai repetir um trecho do livro Jean Barois, do escritor francês Roger Martin du Gard. Minhas amigas e meus amigos tradutores poderão ser mais precisos na passagem para o português: “croire ou ne pas croire, au fond, ce n’est pas ça qui importe: l’essentiel, c’est la façon dont on croit ou la façon dont on ne croit pas…” Seria mais ou menos: “crer ou não crer, no fundo, não é o que importa. O essencial é a maneira como se crê ou como não se crê.”
Ele citava isso em muitas ocasiões, em especial, quando falava dos seus anos no Colégio São José. Ele detestava os dogmas da igreja católica que os padres empurravam goela abaixo de jovens como ele e o fato, parece-me, era da forma como abordavam o que deveria ser um caminho da espiritualidade. Os rituais despidos de verdadeira intenção e emoção não fazem sentido. Por outro lado, as atitudes e determinadas criações podem equivaler a manifestações divinas. Por exemplo, a solidariedade e a arte, nas suas mais variadas expressões, nos seus mais variados matizes.