
A culpa, sim, a culpa! Mal começo a escrever e sinto-me culpado pelos erros e lacunas deste texto que meu orgulho tolo hesita perdoar. A culpa está no meio de nós. É prima da angústia, do medo e da numerosa família dos complexos. Psicólogos, filósofos e mentes notáveis escreveram sobre ela – um sentimento humano que merece ser muito bem analisado e processado. A espécie que mais me acomete é a culpa social. Viver num mundo de crianças com fome é muito complicado. Sobretudo, quando fazemos todas as refeições do dia, temos uma casa confortável e outros luxos.
Mas trato aqui das injustiças e das culpas que tentam nos incutir, procurando encontrar a saída de emergência do humor para fugir do baixo astral. Como dói ser acusado pelo que não se fez! Como revolta cumprir as penas que caberiam a outros ou a ninguém. Lembro-me do Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Li ainda criança. E lembro-me também dos indefesos caçulas, como eu, do Sr. Palhares e da Rosa, a querida portuguesa que trabalhava para a família de meu amigo Zé.
Toda traição é golpe. No caso de Edmond Dantès, personagem central do clássico de Dumas, seus algozes, Mondego, Danglars e de Villefort, empregaram requintes de crueldade e foi quase impossível a fuga do Chateau D’If, seu cárcere. Numa escala mais branda, também é dura a surra dos irmãos mais velhos no caçula pelo último pedaço de torta de maçã supostamente comido. Pior: sem tê-lo feito é duplamente doloroso: pela dor física dos cascudos e pela dor moral, da resistência em vão da tentação de saborear a guloseima atrás da porta. Os caçulas sempre pagam o pato. São os “suspeitos de sempre” do filme Casablanca.
E abordando as culpas, como não mencionar o pai da Luluzinha dos gibis? O Sr. Jorge Palhares jamais escapou impune da perspicácia do detetive Aranha, encarnado por Bolinha. Quanto à Rosa, não era diferente. Ela era tida como uma contumaz “lascadora” de porcelanas e destruidora de bibelôs, apesar de sempre ter negado as acusações. Certa vez, ao final de uma faxina na casa da Beth, irmã do Zé, Rosa entrou em pânico quando viu uma passarinha sem cabeça na estante da sala. Quando encontrou Beth, ela não hesitou: “ó Beth, não fui eu que quebrei essa passarinha. Já estava sem cabeça quando cá cheguei”.
Para Beth, o fato era a exceção que confirmava a regra! Tratava-se de uma réplica em miniatura da Vitória de Samotrácia. Estima-se que esta deusa, enviada por Zeus para anunciar o triunfo e a glória, foi esculpida no mármore 200 anos antes de Cristo. A estátua original, magnífica, está no alto de uma das escadarias do Museu do Louvre, em Paris, e com toda certeza, Rosa nada teve a ver com sua decapitação. Tampouco, eu, e acredito que o pai da Luluzinha também seja inocente, pelo menos, enquanto o detetive Aranha não entrar em ação.
PS O relato está certo, Cristina Batalha?