O pior efeito colateral da segunda dose da vacina e do seu reforço é perder a desculpa na ponta da língua para não ir a determinados eventos. AV, antes da vacina, eu tinha a autoridade de uma Fiocruz ou da OMS para evitar encontros com os bolsonaristas crônicos da família que debocham do vírus e desdenham do óbvio. Mas, DV, depois da vacina, determinados martírios são difíceis de escapar. Na melhor hipótese, uma troca de sorrisos amarelos (cadê a máscara?) e silêncios prolongados até a hora de ir embora.

É o caso que ocorrerá na próxima semana. Não teremos como escapar de um casamento ao ar livre, onde, certamente, estarão presentes seis ou sete “#fechadoscombolsonaros”. Acredite! Eles são encontrados nas melhores famílias e, pior, falam e tocam em assuntos delicados. Pressinto o constrangimento e uno o dedo polegar com o indicador das duas mãos para entoar um cântico nepalês. Tento visualizar uma cor púrpura no horizonte, mas, não adianta, só consigo antever a fisionomia daquela contraparente que gostaria de ser a quarta esposa de Henrique VIII, digo, daquele cujo nome eu evito digitar.

Mas, diante do inevitável, é preciso relaxar e evitar perder a cabeça. Se não chover e o casamento realmente acontecer, nada de replicar asneiras. Nada de cobrar coerência dos “incorruptíveis”. Nada de ironias e, sobretudo, nada de sarcasmo. Não vale a pena! Sempre nos arrependemos depois. Na hora da réplica, antes que ela saia da boca, é melhor comer um cajuzinho ou beber um copo d’água.

Pensando bem, não seria uma má ideia chover… Os noivos partiriam direto para a lua de mel… Felizes e sem máscaras, lógico. Mas, caso a cerimônia aconteça e percamos a cabeça numa discussão virulenta, façamos como Saint-Denis, o padroeiro da França. Reza a lenda que, depois de decapitado no Monte do Mártir, Montmartre para os íntimos, o bispo de Paris do século III se abaixou, pegou sua cabeça nas mãos e seguiu em frente com altivez. Pronto! Eu precisava colocar a história de Saint-Denis, que Sonize me contou ontem, em algum texto. Voilà! De todo modo, eu prometo não cair em tentação e não brigar com os bolsonaristas que tanto nos ofendem. Amém!