
Na minha frente, na fila do caixa do banco, onde vou raríssimas vezes desde a informatização dos serviços e da popularização da Internet, duas pessoas e um mesmo destino: desbloquear seus cartões e os acessos às suas contas. Ambos erraram na digitação das letras e números que abrem as portas para o pagamento de contas, transferências, aplicações, extratos e, não raro, para a renegociação de suas dívidas.
A primeira senhora que foi atendida, garantiu ao caixa que não tinha errado a senha, que o aplicativo do seu telefone estava com algum problema, que jamais teria se esquecido do nome da filha e do ano do seu nascimento. Mas, qual das filhas e que data de nascimento… passou a se perguntar. Teria incluído o dia, o mês e a hora? Começou a duvidar de si mesma e implorou que o funcionário do banco resolvesse o problema, escolhendo uma boa senha para ela.
A segunda pessoa, jovem como eu, esgotara sua possibilidade de escolher uma nova senha. Não podia repetir as três anteriores, mesma exigência da empresa onde trabalhava e onde, periodicamente, por uma questão de segurança, era preciso mudar. No banco, sua aflição foi a de confirmar a senha escolhida segundos antes e colocar seu dedo indicador para o reconhecimento digital, irreconhecível depois de besuntado com álcool gel. Dava um branco no “rapaz”, que aparentava estar apavorado com a possibilidade de ter contraído aquela doença cujo nome faço questão de me esquecer.
Depois, a minha vez. Eu não estava ali para revalidar qualquer senha. Desejava pagar uma dívida com meus irmãos e, na recepção, mandaram-me ao caixa em razão do valor das transferências, que excedia ao permitido pelo caixa eletrônico. Não foi surpresa ouvir que eu teria que voltar ao andar térreo para obter um visto do gerente que demorou hora e meia. O sistema caiu e foi preciso ter paciência.
Restabelecidas as conexões digitais, as dívidas foram pagas (generosamente sem a cobrança de juros) e voltei para casa, imaginando como deve ser a operação de contas offshore no Panamá, nas Ilhas Cayman ou na velha Suíça dos chocolates e das contas numeradas. Como será que o atual ministro da Economia e o presidente do Banco Central brasileiro devem fazer? Será que se esquecem das suas senhas? Não creio que as revelem para auxiliares. E que combinação de números e letras devem usar Suas Excelências? E quando a senha é bloqueada?!
Superados os conflitos morais e legais de o ministro Guedes aplicar a sua fortuna alhures, certamente, por não confiar na economia que dirige, e do guardião da moeda nacional, Campos Neto, que deve ter um pé atrás com o real ou com a realidade do Brasil, restam os problemas com suas senhas. Qual será a do Guedes?! Ipiranga2019? 31031964? E a do Campos Neto? Selic seguida do ano do nascimento da progenitora? Copom seguido do ano de nascimento do avô? E se eles se esquecerem diante de tantas responsabilidades que têm? Terão que ir até a boca do caixa offshore? A prudência recomenda que evitem ir até a Suíça ou ao Caribe com um avião da FAB. Melhor recorrer a um amigo banqueiro…
Imoral da história: no Brasil, os gestores não confiam na sua própria gestão. Os da Educação pública matriculam seus filhos em instituições privadas. Os gestores da Saúde pública não atrasam o pagamento de seus planos de saúde. Os responsáveis pela Segurança pública não abrem mão de escolta e, óbvio, o ministro da Economia e o presidente do Banco Central não confiam na economia nem no sistema financeiro nacional. Simples e triste assim. Tem saída? Difícil… Mas, de minha parte, já escolhi uma senha: Forabozo2022. Peço discrição aos amigos.