Poderia ter sido com uma de suas músicas marcantes, mas acordei hoje pensando no Mozart interpretado por Roman Polanski na peça Amadeus, de Peter Shaffer, que assisti aos 20 anos e, até aqui, motivo de orgulho de uma biografia em parte cabotina – a minha –, que com tempo e maturidade vem sendo reescrita com mais humildade ou simplesmente apagada.

  Era 1982, Paris, Théâtre Marigny, outono. Lá estava eu, sozinho, numa poltrona diante de um monstro do teatro francês, François Périer, interpretando o compositor Antonio Salieri, ao lado de outro ícone das artes, o cineasta Roman Polanski no papel do Wolfgang Amadeus Mozart. Sempre contei essa minha ida a esse teatro, a essa peça, como figurinha carimbada da minha vida, uma façanha. Mas, percebo agora, foi uma bobagem ou, pior, uma fraude, pois, afora a ambiência e a energia dos 20 anos, só aproveitei as gargalhadas do Mozart/Polanski.

 Não entendi praticamente nada e pouca diferença faria se a peça tivesse sido interpretada em polonês. Aquele ingênuo estudante de francês que eu encarnava pagou uma fortuna pelo ingresso e teve sua dieta bastante reduzida nas semanas seguintes para cobrir o rombo no orçamento. Algumas refeições foram substituídas por saquinhos de castanhas assadas comprados nas ruas frias de Paris.

 Finalmente, décadas depois, ao ler sobre a obra e depois de assistir ao filme dirigido por Milos Forman, as peças do quebra cabeça de 1982 foram se encaixando. A genialidade e a compreensão do texto passaram a fazer sentido, de um Salieri protagonista que se percebe um coadjuvante sem importância que nunca quis ser. Ele tinha pedido a Deus para ser um grande astro. “Signore, Senhor, deixa-me ser um compositor! Dá-me fama suficiente para que eu possa desfrutá-la. Em troca viverei com virtude”. De fato, ele teve muito prestígio na sua época. Graças a Deus. Mas, ao ouvir a música de Amadeus, foi tomado por um conflito insuperável.

A rigor, o filme, cujo roteiro é do mesmo Shaffer, transforma Mozart num trêfego idiotizado ainda que talentoso e Salieri – professor de Beethoven e de Schubert! – num mero conspirador invejoso. Uma versão muito oscarizada, sem dúvida, mas que, com arte, trata de um de nossos pecados capitais, a inveja, como não sermos os grandes protagonistas do nosso meio. Quem somos nós neste mundão enorme? Que importância têm os nossos feitos, as nossas teses, as coisas que acumulamos e determinadas vivências, em geral, idealizadas?

Desde já pedindo perdão pela filosofada, creio que as nossas buscas são mais importantes, assim como nossas dúvidas e a disposição de atuar como coadjuvantes, de estarmos na plateia certa, diante de uma paisagem bonita, de uma escultura inspirada, escutando amorosamente alguém ou ouvindo o Concerto para Clarinete em Lá Maior, do mesmo Mozart. É divino!