
Guardo com carinho meu diploma da Terra Santa, dado pela minha tia-avó Maninha. Ela deu o mesmo presente para todos os seus muitos sobrinhos, como uma forma de protegê-los. Seu nome era Emília e, ao contrário do que se pode imaginar, não era carola. Nunca se casou. Sua tarefa foi cuidar da mãe, mas, paralelamente, estudou muito. Trabalhou como assistente social, tocava piano, era poliglota e apaixonada por Napoleão, de quem se dizia noiva. Não herdou nada dos pais, mas se tornou uma mulher independente.
Tia Maninha era hipocondríaca – ou, de fato, o médico esquecera uma pinça em sua barriga quando de uma operação na vesícula. Resultado: ela se recusou a sair do hospital, a Beneficência Portuguesa, e meu avô Adriano, seu irmão, foi chamado a intervir. Resumindo esse capítulo da sua história, ficou acertado que, em troca de uma quantia bastante razoável, ela teria um quarto vitalício no hospital, onde, de fato, viveu por mais trinta anos e onde tinha seus livros, sua máquina de escrever e, lógico, o retrato do noivo, o Sr. Bonaparte.
Apesar do seu endereço incomum, tia Maninha não vivia como um Napoleão ou como uma Josephine de hospício. Além de muito culta, era lúcida, sensível, prezava a liberdade, a solidariedade e a fraternidade – uma pessoa do bem, o oposto do que temos visto por aí – de tresloucados de verde e amarelo, tal qual papagaios insanos, a repetir palavras de ordem burras e grosseiras. Mas não vou cobrir essa boa memória que estou evocando com o que será o lixo da história num futuro próximo.
Uma vez por semana, minha tia saía da sua casa para visitar meu avô. Lembro de vê-los sentados, um de frente para o outro, quase sempre em silêncio. Faziam um lanche e ela voltava para a sua rotina na Beneficência. Viajou muito, mas, segundo dizia, sem sair do seu quarto – o fez nas suas infindáveis leituras e assistindo aos programas do Amaral Neto, uma espécie de Globo Repórter dos anos 1970. Para sua tristeza, sobreviveu ao meu avô. A pinça esquecida na sua barriga deve ter feito bem para a sua saúde. Não me lembro de como morreu e se alguém chorou a sua partida. Será que alguém se lembra dela? Algum de seus sobrinhos cujos nomes estão na Terra Santa? Eu me lembro, com muito carinho e gratidão.
Mais uma delícia de texto… e de membro da família!
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