Não são apenas orelhões e telefones fixos que estão em extinção; a escuta, o diálogo e até mesmo as conversas pelo telefone celular se tornaram raridades. As chamadas de vídeo são ótimas, nos transportam aos desenhos dos Jetsons, mas o uso do Whatsapp, a meu juízo, tem sido abusivo e nos isolamos cada vez mais.

 As mensagens escritas até tem o seu charme, mas não compreendo bem a comunicação do dia-a-dia por áudios. Não seria mais fácil usar o telefone para telefonar? Sem contar que determinadas gravações são monólogos longos demais. Por delicadeza, quando recebo uma mensagem gravada, digo que meu telefone é velho e mudo. Mas nem todos os locutores se tocam e, pior, o tal aplicativo desenvolveu um artifício indecoroso. Os áudios podem ser transmitidos em alta rotação – o que iguala a voz do autor da mensagem à do Tico, do Teco ou à dos ratinhos da Cinderela

 Quando criança, eu costumava mexer no ajuste da rotação das vitrolas. Havia discos de 33 e de 45 rotações e ouví-los na velocidade errada era engraçado. Mas receber uma notícia, um pedido ou uma ordem com aquela voz fina e acelerada é o fim:

“Maurinhotudobemseiquevocênãogostadeaudiomasestoudirigindoesoubequeéseuaniversárioequerodesejarpazesaúdeahvaiterfesta?querqueeuleveumvinho?”  Tempos muito estranhos os atuais…

O mundo está girando rápido demais. Tudo segue depressa para o passado sem nos darmos conta, sem que aproveitemos as pessoas queridas e as boas coisas do presente, como seria desejável. Por outro lado, o que é ruim não sai da ordem do dia e, pior, contamina o futuro. Ao perder pessoas queridas me dou conta de como a convivência com elas passou rápido. O consolo é que permanecem presentes na memória. Outro dia uma delas soprou-me um conselho para o futuro: “Aproveite ao máximo as suas queridas e os seus queridos. Ligue para eles, ouça suas vozes, dialogue. Mas só enquanto não puder ir diretamente até todos”.