Meu cunhado era médico da Varig e viveu os momentos finais da companhia, quando muitos empregados estavam sendo dispensados. Nessa ocasião, durante uma consulta, um rapaz contou-lhe que todos os seus colegas de departamento tinham sido incinerados, menos ele. O contexto dentro do qual se deu a conversa afastou a hipótese de acidente aéreo ou algo sempre trágico como são os incêndios. Ele confundiu o verbo incinerar com exonerar, que são até parecidos!

 Quem assistiu ao filme A Guerra do Fogo, do cineasta francês Jean-Jacques Annaud, teve uma amostra de como o domínio do fogo alterou a história dos hominídeos, há 80 mil anos. Controlar esse elemento da Natureza significava um atalho para o poder. Mas, infelizmente, a evolução da nossa espécie não foi bem sucedida quanto aos cuidados que requeria.

 Em intervalos de tempo cada vez menores, o fogo tem sido um implacável destruidor. Assistimos na TV o que tem feito na Califórnia, em Portugal, na Grécia e – muito frequentemente – na Amazônia. Mas o verdadeiro vilão, sabemos, pode ser visto nos melhores espelhos do mercado. Sim, o homo sapiens sapiens se tornou o maior predador dele mesmo.

 Temos colecionado sucessivas derrotas nas guerras do fogo. No Brasil, em 2020, foram cerca de 220 mil focos de incêndio e até o Pantanal ardeu. No plano da cultura, o prejuízo também foi enorme. O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, foi consumido pelo fogo em 2015 e, em 2018, perdemos o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista para as chamas. Em poucas horas, as labaredas atiçadas pela incompetência e irresponsabilidade destruíram um arquivo riquíssimo. No final de julho, foi a vez da Cinemateca de São Paulo.

 A crise da cultura – da qual os incêndios são só parte – é de longa data. No tempo da Ministra Marta Suplicy, o diretor da Cinemateca foi incinerado, digo, exonerado, sem um plano de transição e, de lá para cá, os riscos ao acervo só cresceram, culminando com o abandono completo e destruição sob o inacreditável Secretário de Cultura de Bolsonaro, Mario Frias. Apesar de reiterados alertas do Ministério Público, não se obteve uma medida efetiva – mesmo diante do que os advogados chamam de fumus boni iuris ou fumaça do bom direito. Em português claro, significa que onde há fumaça, há fogo, que algo não cheira bem, que ali tem coisa e, de forma bastante direta, que vai dar merda.  

Desculpem a expressão chula, mas aquilo era mais do que previsível. Não agiram e queimaram o filme de uma parte preciosa da nossa história. De Roma, o secretário Mário, onde estava às custas do erário, disse que a culpa do incêndio foi do PT e escolheu uma nova equipe gestora para a Cinemateca. Para quê? Para o rescaldo? Não sei se desejo que Mário Frias seja exonerado, digo, incinerado, digo, exonerado – nem sei mais. Mas uma coisa é certa: o imperador romano Nero, perto dos atuais gestores do meio ambiente e da cultura do Brasil, foi um pobre amador. E, pior ainda, nenhum deles toca lira.