No curso do seu tratamento oncológico, minha mãe contou-me da sua decepção com um médico quando foi preciso colocar um cateter. Além do dia do procedimento, ela esteve com o tal doutor em duas “consultas”: uma entrevista pré-operatória e, depois, em razão de dores após a cirurgia. Menos de 20 minutos no primeiro contato; não mais que 15 na consulta seguinte, tudo, registre-se, regiamente cobrado. Mas o principal motivo do seu desencanto foi com o fato de o médico não ter se dignado a pedir ou a buscar notícias. Se a dor persistia ou não, não importava.

Estou certo de que qualquer bom comerciante, que tivesse faturado uma cirurgia e duas consultas particulares, não teria deixado de pedir à secretária – cujo salário mensal não deve passar de 45 minutos do patrão – que ligasse para a cliente ou dispusesse de algum tipo de serviço de telemarketing. “Sra. Fulana, aqui é do serviço de pós-venda do consultório de Sua Alteza, o Doutor Professor Beltrano MD. A Sra. está viva? Digite 1 para sim; digite 2, bem, 2 não precisa. Em seguida, com relação à qualidade de nossos serviços, digite 3 para muito satisfeita ou 4 para satisfeita. Caso deseje enviar uma caixa de charutos cubanos para Sua Excelência, digite 5. Caso prefira enviar uma caixa de vinhos, digite 6.” 

Muito triste! Mas, justiça seja feita, como ela foi cercada de médicos generosos e comprometidos com uma profissão tão essencial, levo essa história para outro lado e deixo o tal medalhão para lá.

Há coisa de três anos, li no Facebook o relato da médica Alice Mendes Moura. Eu não a conheço, mas a descrição de um atendimento prestado por ela em Curimataí, na Zona Rural de Minas, me encantou, me emocionou, e é nela que gostaria que minha filha, estudante de Medicina, e todos os médicos se inspirassem. A Dra. Alice sabe perfeitamente com quem está falando. Com o seu paciente! E ela o faz com muita competência e com amor à sua profissão. Seu relato, a seguir, é longo para os padrões da Internet, mas vale por cada palavra. Bom domingo!

“-Pode entrar seu H. Meu nome é Alice. Sou estagiária da Medicina UFMG.

-“Esta” o quê? 

-Estagiária. Quer dizer que tô estudando pra ser médica.

-E falta muito ou acaba logo?

-Acaba logo! No fim do ano! O senhor tá com quantos anos mesmo?

-Acho que tô com 80…

-Ixi, o senhor perdeu as contas aí?

-Eu esqueci… Tô com a cabeça meio ruim.

-E no que eu posso te ajudar?

-Tô com dor nas cadeiras. Quero injeção pra passar.

-O senhor pode me mostrar onde é que dói?

Ele coloca as mãos espalmadas na coluna lombar.

-Tem muito tempo que tá sentindo essa dor?

-Já vai fazer um ano. Eu venho aqui, tomo a injeção e ela passa. Mas volta uns dias depois. Aí sempre que tem médico aqui, eu tô vindo.

-E não tá tomando nenhum remédio em casa?

-Tô não. Gosto disso não. Tomo muito é chá!

Pergunto sobre as características da dor. Excluo os sinais de alarme da lombalgia. Faço os testes para acometimento nervoso. Tudo indica que se trata de uma lombalgia mecânica.

-O senhor tem algum problema de saúde?

-Que eu tô sabendo, tenho não…

-Tem doença de Chagas?

-O quê?

-Do barbeiro. O Machado Guerreiro…

-Ah! O Machado! Tenho não… Já fiz teste já.

-E o senhor trabalha pesado? 

-Hoje mais não. Mas trabalhei muito na lavoura, plantação de café. Era trabalho demais, eu não parava nem pra beber água. Também já trabalhei de pedreiro, de carpinteiro… Já construí muito hospital, muito prédio bonito… Mas quase nunca entrei em um.

-E hoje em dia, o que é que o senhor faz?

-Hoje em dia eu tô em casa… Minha mulher morreu. Fico sozinho. E também com essa dor nas pernas não tem jeito de fazer nada não.

-E o que é que o senhor gosta de fazer?

E os olhos enchem de lágrimas. Eu logo penso que preciso parar de fazer os pacientes chorarem. Mas se tem como desabafar e pôr a dor pra fora, ao fim e a cabo, é melhor do que deixar pesando do lado de dentro.

-A minha vida era a Folia de Reis. Eu era Mestre da Folia! Tocava sanfona!

-Olha só, que incrível! Eu adoro Folia! Lá em casa, em Sete Lagoas, tinha todo ano quando eu era criança! 

-Ah! Conheço Sete Lagoas! Já fui muito lá! E em outros lugares com a Folia. Mas essas coluna doendo, o peso nas pernas… Nem consigo carregar a sanfona, é muito pesado.

-E quem te ensinou a tocar?

-Uai, eu que aprendi sozinho!

-Oh, que bacana! Eu trouxe um violão pra cá. Arranho umas músicas nele. Mas acho difícil…

-Né não, boba. Difícil é colocar uma letra atrás da outra, encher uma folha aí que nem cê tá fazendo…

-O senhor não sabe escrever?

-Sei não.

-E ler?

-Muito pouco… Mas hoje em dia nem vistas pra aprender tenho mais não. Eu toco violão também! Lá em casa tenho violão, viola caipira, acordeon, zabumba, tambor.

-Tem a Folia de Reis montada então!

-É… Era… Mas agora essa coluna assim… Tá doendo mesmo.

-Se eu tô entendendo, essa dor tá te atrapalhando demais, né?

-É… Atrapalha a música…

E ele volta a chorar

-Tem também a andança… Eu andava isso aqui tudo, na beira do rio [Curimataí]. E pescava. Agora não posso. Mas a gente vai ficando velho e tem que parar de fazer as coisas mesmo.

-Uai, seu H. Nada disso! Tem que parar de fazer o que gosta não! Senão a vida da gente murcha! A gente vai ficando triste, triste e dá até doença de tristeza.

-É, eu ando muito amuado mesmo…

-Então… Temos que cuidar da dor da coluna… E dessa tristeza também. No fim das contas um tá junto do outro, né? Se piora um, piora o outro também.

-É verdade. Agora que cê falou eu reparei isso mesmo!

-Então vou fazer as receitas pro senhor tá? Vou colorir nas caixinhas aqui. Botar sol e lua pro senhor saber se toma de dia ou se toma de noite.

-Ah!!! Assim é bom! Assim fica mais fácil!

– Que bom! E vou marcar pro senhor voltar também. Quero te ver de novo! Às vezes tem tristeza muito grande que a gente usa remédio pra ajudar também… Mas vamos dar um tempo pra dor na coluna passar e aí o senhor me conta como ficou. Pode ser?

-Uai, se você achar bom eu acho bom também!

-Ah… Eu gosto mais quando a gente acha bom junto. Ou se um acha bom e o outro não gosta, a gente conversa até se entender. Melhor, né?

-Uai, é mesmo né? Juntando dois é melhor!

-E o senhor quer voltar?

-Quero! Eu acho bom também!

-Então tá combinado! Leva aqui o papelzinho que vão marcar pro senhor voltar, tá bom? E tem aí pra fazer uma injeção pra dor também! Passa lá na moça que te atendeu antes de mim, que ela faz!

-Tá bom! Até as vistas!

-Até! Vai com Deus!

-Com Deus também, minha filha!

Ele para na porta, volta e pergunta baixinho:

-Será que eu vou poder mesmo voltar a tocar sanfona?

-Se Deus quiser volta sim! Vamos tratando direitinho e conversando, tá bom?

-Então tá! Então tchau! Quando eu voltar vou trazer manga!

-Eba! Vai com Deus!

(Se saúde não é fazer o que gosta, o que faz a gente feliz, eu não sei mais o que é )”