
A semana continua palpitante com a CPI da Pandemia – o que reforça o brocardo de que se sabe como uma CPI começa, mas, não, como ela termina. Muito diferente dos enlatados do cinema… Sempre sabemos como vão acabar. Mas esta comissão de inquérito do Senado parece estar seguindo um roteiro refinado, como o do filme Match Point, do Woody Allen. É genial!
Quarta-feira, o depoimento do ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, o Sr. Roberto Dias, começou morno. Ali, aparentemente, não havia nada de extraordinário. Até que surgiu uma palavra mágica: dossiê! Supostamente, para garantir dias melhores, o ex-diretor tinha preparado um caderno de maldades – ou de verdades – que estaria sob a guarda de um primo no exterior.
A partir desse momento, quem cochilava no sofá colocou os óculos e passou a observar atentamente o restante da sessão. A simples palavra “dossiê” já evoca enredos muito interessantes. Um dos dossiês mais famosos, segundo reza a lenda em Brasília, era o do avô do presidente do DEM, ACM Neto. Lembrei-me também do Dossiê de Odessa, título de um filme estrelado pelo pai da Angelina Jolie, que interpreta o papel de um jornalista que, por acaso, puxa o fio de uma meada tenebrosa.
A sessão prosseguiu e por maior que fosse o talento do depoente para atuar, sobreveio uma daquelas surpresas geniais para os espectadores. O presidente da CPI, o Senador Aziz, olhou para a câmera e disse: “Chega! Dei todas as oportunidades para o Sr. Dias dizer a verdade, mas ele está mentindo desde o início. Ele está preso! Chamem a polícia do Senado! Pode levar!”. E foi aquele bafafá…
Moral da história: nada como dormir tranquilamente e não acordar com um dossiê ensanguentado sob os lençóis à moda do Poderoso Chefão. Ou receber um peixe embrulhado em jornais comunistas como antecipação de uma sentença de morte à siciliana. A chave para sonharmos com os anjos é a de não vender a alma para o DAS. Para quem não sabe, DAS é mais uma designação do Tinhoso, do Coisa Ruim, daquele cujo nome não se pronuncia.
Façamos o sinal da cruz e jamais cedamos a determinadas tentações. Vai que gravam. Vai que filmam. Vai que alguém descobre aquele despacho… Depois do estrago feito, não há nota de repúdio que salve. A bomba explode sempre no colo do mais fraco. Melhor nos contentarmos com o nosso contracheque sem penduricalhos e nos limitarmos a fazer o que sabemos e é esperado de nós. Faz mais, digamos, sentido!