
Não me canso de admirar a inteligência do Cuscuz e dos cães em geral. Sua última façanha é se esconder quando ouve falar em banho e em pet shop. Ele sabe que, depois que essas palavras são pronunciadas, o interfone tocará, em seguida, a campainha, e ele ouvirá a voz da moça do pet shop. Mas, resignado e gentil, ele a acompanha na sua liturgia semanal.
Quem assistiu à série de TV “Lupin” – não sei ainda do Arsène Lupin dos livros de Maurice Leblanc -, conheceu a adorável J’accuse, uma cachorrinha que se torna amiga do protagonista do filme e reconhece o nome do vilão da história. Quando o tal nome é pronunciado, ela late.
Não tenho dúvidas de que os animais, além de determinadas palavras, reconhecem os malvados. Eles não erram como os humanos – o que me faz pensar na agonia e no estado das cordas vocais das pobres emas do Alvorada… Devem estar em frangalhos.
Mas, além da inteligência e simpatia, os nomes Cuscuz e J’accuse merecem registro.
O primeiro foi escolhido porque se parece com um doce de coco raladinho e branquinho. E a linda J’accuse imagino ser uma referência ao célebre artigo publicado no final do século XIX pelo escritor Émile Zola, em reação a uma das maiores mentiras afirmadas e reafirmadas pelo Estado francês, o Caso Dreyfus.
Alfred Dreyfus, capitão do Exército francês, foi injustamente acusado de ter passado segredos de Estado aos alemães. Condenado à prisão perpétua, foi mandado para a Ilha do Diabo. Mas as muitas inconsistências do processo dividiram a opinião pública francesa entre os que eram pró e contra Dreyfus.
E foi nesse contexto tumultuado da história da França que o artigo “J’accuse” foi escrito. Zola acusou um militar de ter sido o artífice de um erro diabólico; acusou um general de cúmplice, por fraqueza de espírito; acusou outro general de abafar a verdade dos fatos e acusou outros dois oficiais, nos seguintes termos:
“Eu acuso o general de Pellieux e o comandante Ravary de terem feito uma sindicância rápida, e quero com isso dizer uma sindicância da mais monstruosa parcialidade, onde temos, no relatório do segundo, um monumento indestrutível de audácia ingênua.”
“Eu acuso o primeiro Conselho de Guerra de ter violado a lei ao condenar um acusado apoiado em uma peça de acusação mantida secreta, e acuso o segundo Conselho de Guerra de ter encoberto esta ilegalidade, sob ordem, cometendo também o crime jurídico de inocentar sabidamente um culpado.”
O texto de Zola é muito forte. Decorreu da injustiça feita contra uma vida, a de Alfred Dreyfus… Imagino o que ele teria escrito, mais de 120 anos depois, se tivesse tomado conhecimento das mais de 500 mil pessoas mortas no Brasil, vítimas da forma como a pandemia da Covid 19 progride no Brasil.
(O texto está grande… Publico a continuação depois)