
Ontem, uma amiga, empolgada com o roteiro da terceira temporada do Método Kominski, ficou indignada quando soube que eu ainda não tinha assistido. “Como assim, você ainda não viu?! Já estreou há uma semana! Genial!” Pois é… Nada escapa à Miss Update, como a chamo com carinho. Ela tem a agenda mais completa e atualizada que conheço. Lê, vê e ouve tudo, assim como vai a todos os lugares. Suas horas equivalem aos meus dias, seus segundos às minhas horas e, mais do que o entusiasmo, a ansiedade de Update é contagiante. Volta e meia me vejo como um desprezível inadimplente de textos, filmes, exposições… de tudo.
Não há um dia sequer que Update não me cobre a leitura do que o infectologista tal escreveu sobre a nova variante do coronavírus. “Você trabalha na Câmara e não leu? Não posso acreditar!” Se fosse minha chefe, já teria me exonerado e, infelizmente, minha coluna não permite que eu me coloque na posição de lótus e dê um longo suspiro zen antes de retrucá-la. Dessa última vez, respondi de pé e na lata. “Não vi e sou grato por isso, pois tenho à minha frente uma temporada inteira de uma série que me rendeu gargalhadas deliciosas. Já você, bem, perde muito por ser tão rápida”.
Ela não gostou do que ouviu. De todo modo, foi importante dizer e é uma lição que devemos compartilhar com os amigos. Nada como as lacunas nas nossas vidas! Sem elas poderíamos desistir de viver e entregar os pontos. O que ainda não fizemos é o passaporte para buscarmos o desconhecido, o inédito. A primeira vez das coisas tem um valor extraordinário. O medo pode precedê-las, mas debutar não tem preço. A primeira vez em Paris, a primeira garfada do Toucinho do Céu feito por minha mãe, a primeira vez que terminamos um livro de Eça ou de Machado de Assis com um sorriso no rosto… Eu diria que até o primeiro porre tem lá seu encanto…
Os portugueses dizem que quem ri por último tem o raciocínio lento. É uma brincadeira, lógico. Mas para que correr? Além de cansar, a pressa é mais que inimiga da perfeição; ela é limitante. Impede-nos de apreender os detalhes e, por outro lado, enquanto tivermos incógnitas adiante, coisas que jamais fizemos, não sofreremos o tédio. Portanto, digo agora à minha querida amiga: os que ainda não viram a terceira temporada do Método Kominski têm sorte! Sorte, também, de todos os que ainda não conhecem lugares maravilhosos mundo afora. Poderão se deliciar ao planejar os roteiros e a sua concretização. Felizmente, minha lista de livros e filmes para ler e assistir antes de morrer é colossal. Sigamos em frente docemente. O que é ruim deve passar rápido, as boas surpresas pela frente, não.
Que delícia de texto, Mauro! Ainda tenho tanta coisa para descobrir. Nunca vai dar para eu ficar up to date. Ainda bem!
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Não é? Muita coisa boa pela frente. Bjs
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Ah! Está no topo da lista conhecer sua casa em Avignon.
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Pois é, eu tenho uma amiga que é o contrário da sua Update. Ainda não leu Torto Arado, em março, quando lhe perguntei sobre os filmes do Oscar, ela respondeu: “Não tou sabendo, pode me mandar a lista”? se eu falar de Método Kominski, ela vai achar que é dica para emagrecer ou para dar aula de francês. Mas é muito nteligente, de verdade. Outras vidas, outros ritmos. Meu pai dizia: “não faças hoje o que podes fazer amanhã, porque amanhã pode não ser preciso fazer.
Por falar nisso, como assim, você ainda não viu a terceira temporada do Kominski??!!!
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Kkkk. Vou começar hoje, sem falta!
E Torto Arado é mesmo dos melhores livros que já li.
Bjs
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