Foi quando li a interessantíssima autobiografia da pianista chinesa Zhu Xiao-Mei, adolescente durante a Revolução Cultural na China, entre 1966 e 1976, que tomei conhecimento de uma composição singular do norte-americano John Cage, datada de 1952 e comentada por Xiao-Mei. O título é 4’33” (quatro minutos e trinta e três segundos). A música entre aspas é mundialmente reconhecida como um exemplo do gênero aleatório.

Para executá-la, a orquestra se posiciona no palco, o maestro entra, cumprimenta a plateia, os músicos, levanta a batuta e … durante quatro minutos e trinta e três segundos, nenhum som é emitido pelos instrumentos de cordas, de sopro, metais e percussão. Silêncio… ou quase… A “música” variará, dependendo de quantos tossirão na plateia, do ranger das poltronas, dos papéis de bala amassados, espirros e, não raro, sons escatológicos…

Ora, fiquei empolgado ao me dar conta de que também seria capaz de compor peças semelhantes em diversos ramos artísticos: uma sinfonia muda, uma tela em branco, um mármore não esculpido, uma dança sem movimento, um filme totalmente noir ou um livro inteiramente em branco. E com a vantagem de que seriam produções baratas, sem estrelas e livres dos interesses comerciais das grandes editoras, das salas de espetáculo e da indústria de Hollywood. 

Devaneios à parte, juro que procurei ouvir outras peças desse músico americano, mas estou seguro de que 4’33” é a melhor ou, sendo sincero, a única de que gostei. Minha mãe, que me deu esse livro da pianista chinesa para ler, costuma dizer que devemos nos inspirar no clássico da literatura infanto-juvenil Pollyanna, pois há sempre uma forma mais suave para enxergar o que não é bom. Daí, percebi as virtudes de 4’33”, de John Cage. Se música não é boa, melhor o silêncio.

E em tempos de retrocesso político, de ruídos tão cruéis e falas perversas, temos no silêncio uma prece, um refúgio e um meio de resistir. Logicamente, não o silêncio imposto pelas ditaduras e como foi no caso de Zhu Xiao-Mei. Ainda criança, foi considerada inimiga do regime chinês da época porque tocava Schumann, Chopin, Beethoven, Brahms e o universal Bach, cujas Variações Goldberg interpreta magistralmente. Salvou-se graças à música gravada na sua memória, que verdadeiramente eleva o espírito.