Causou-me espanto o artigo do Sr. Eduardo Affonso, publicado no jornal O Globo do dia 31 de maio, “A via-crúcis da terceira via”. Em sua opinião, “Bolsonaro é a segunda pior coisa que já aconteceu ao Brasil.” Suspendi a leitura, olhei para o teto e tentei imaginar qual seria a primeira pior. Imagens terríveis me vieram à cabeça: tráfico de africanos, escravidão, oligarquia, Estado Novo, Golpe de 64, censura, tortura… Retomei o texto e li que o mal de todos os males, segundo o articulista, foi Lula da Silva, tout court.

Nas linhas seguintes, formalmente bem escritas, como de hábito, o Sr. Affonso descreve as garras do bicho-papão e afirma não haver grandes contrastes entre o atual presidente da República e aquele que governou o Brasil entre 2003 e 2010. O negacionismo e as milícias de um matariam tanto quanto a corrupção e a ineficiência de outro. Ambos negam a política e desprezam o diálogo. Por outro lado, numa escala de cores, um é preto e o outro branco, quando o desejável, a terceira via, é ter um governo “collorido”. As duas letras eles, que evocam Collor de Melo, é malícia minha, confesso, pois o Sr. Affonso não fez menção ao Caçador de Marajás nem deu pistas se foi a terceira, a quarta, a quinta ou sabe-se lá que posição no ranking das piores coisas que já aconteceram ao país.

Ora, é dificílimo assimilar o texto do Sr. Eduardo Affonso. Chega a atribuir a Lula uma parcela das mortes por Covid no Brasil, pois, segundo ele, os governos anteriores desviaram bilhões de reais que poderiam ter sido investidos em saúde – mas os “governos anteriores” que o Sr. Affonso enxerga surgiram apenas em 2003, quando Lula subiu a rampa do Planalto. Portanto, por mais que o cronista tenha tentado reelaborar o último parágrafo, invertendo a posição de quem é o pior, Lula ou Bolsonaro, o estrago foi feito. Com sincero respeito, digo que não foi apenas simplória a comparação do ex-presidente Lula com um misógino, apologista de Brilhante Ustra e devo parar por aqui. A comparação foi dolorosa.