Se tudo der certo – ou menos errado -, amanhã serei vacinado contra a Covid. Será o fim de uma longa espera, atrás dos menos jovens e ampliada pela preferência dada a pessoas com comorbidades e portadoras de carteiras de conselhos regionais de determinadas profissões – estejam elas ou não na linha de frente do combate à pandemia.

Um jovem vizinho contou-me que foi vacinado porque seu médico atestou que ele tem asma. “Poxa, pena você não ter asma também”, tentou me consolar. Uma conhecida, com menos de 40 anos, mas formada em Psicologia, não abriu mão da prerrogativa de se colocar na frente de milhões de pessoas, apesar de trabalhar em casa. Imagino que Freud explique.

Ora, as comorbidades são justificativas plausíveis na definição de prioridades; o simples vínculo corporativo, não. De todo modo, o critério poderia ser mais polêmico, se fosse admitida a autodeclaração. Nada de exigir comprovantes de idade, atestados médicos ou carteirinhas do CRM, do CRF, do CRVG, do BFR, do FFC e outras! As pessoas simplesmente declarariam suas idades, doenças graves e suas atividades mais ou menos arriscadas.

Antevejo as discussões nos postos de vacinação:

– A senhora não tem 80 anos!

– Lógico que sim. Devo a boa aparência a exercícios físicos e bebo muita água.

– Alto lá! Na sua autodeclaração consta que o senhor tem 90 anos, é auxiliar de enfermagem, hipertenso, diabético, asmático e foi submetido a uma operação de fimose.

– Isso mesmo! E também sou advogado! Todos são inocentes até prova em contrário. Vamos lá, cadê a vacina?!

Complicado…