
Não fosse a pandemia, que nos reserva mais tempo para os conhecimentos inúteis, jamais saberia que “criônica” é a denominação científica para a criogenia de humanos, o congelamento de homens e mulheres que desejam dar um tempo, submetendo-se ao controverso processo de congelamento do corpo.
Quando criança, ouvi dizer que Walt Disney tinha sido congelado. Nunca conferi a história, mas, segundo registros confiáveis, o pai do Mickey Mouse morreu em 1966, aos 65 anos. Se o método da criogenia foi realmente utilizado, deve ter sido para trazê-lo de volta à vida quando a Medicina pudesse curá-lo de uma doença.
O fato é que de lá para cá a Ciência avançou enormemente, e não me surpreenderia se Disney reaparecesse em público ao lado de Elvis. E mais!, que fosse criado um serviço de congelamento humano para a classe média, mais barato do que os planos de saúde e de previdência privada. No meu caso, fiz as contas. Manteria meu apartamento alugado durante o congelamento. Formaria um bom capital e retomaria a vida em 2081.
Mas a coisa é muito mais complicada do que parece. Como despertar no futuro sem ter os amigos por perto, e nas mesmas condições em que os teria deixado antes de entrar no freezer? Como aceitar reencontrar minha filha com 80 anos de idade – ela e meus netos mais velhos do que eu?! Não! Isso não daria certo. Congelar-me por 60 anos não é razoável nem desejável. A não ser que, como Noé, eu dispusesse de uma arca refrigerada e com espaço suficiente para toda minha turma.
É possível que eu esteja viajando demais nesta “criônica”, mas, depois daquele espetáculo deprimente do domingo passado, das motos, do capitão e do seu general de estimação, até que entrar numa fria por um ano e alguns meses para acordar somente no dia 1º de janeiro de 2023 pode ser uma boa…
Acordar num país livre “daquele cujo nome não se pronuncia” deve ser o máximo! E se eu tiver uma surpresa ruim no réveillon de 2023 (bato três vezes na madeira), sempre poderei recorrer à cápsula de cianureto de potássio que carrego no bolso, no caso, para livrar-me do pior dos pesadelos.