
Silêncio é artigo de primeira necessidade, mas muito raro. Nas grandes cidades é escasso. O sentido da audição o interrompe a todo instante. Já no campo o silêncio dá lugar a sons agradáveis: à revoada cantante dos pássaros, ao canto do galo, ao mugido da vaca, aos sons de grilos e cigarras e, numa cadência bem marcada, à expressão do sapo martelo.
O silêncio é tão importante, que também é lei. Entre sete da manhã e dez da noite, as vizinhanças aceitam conviver com o barulho, mas, durante as outras nove horas do dia, por favor, silêncio; a não ser nas proximidades dos hospitais, onde se roga por silêncio o dia todo. Afinal, barulho faz mal à saúde.
Ultimamente, porém, uma outra dimensão do silêncio tem feito uma falta enorme. Não tem a ver com a escala de decibéis, mas com o conteúdo do que se diz. Dói na alma mais do que nos ouvidos escutar o que dizem aqueles que governam a cidade, o estado e, sobretudo, o país. Pior: falas amplificadas por pessoas conhecidas nossas, submetidas a uma lavagem cerebral inexplicável.
O prefeito, que até engana com espasmos de racionalidade, não faz o que recomenda aos outros e desafina nas rodas de samba. O governador, cantor gospel, alçado ao cargo por uma improvável conjunção de fatores, gagueja ao tentar justificar a última chacina promovida pela sua polícia. Por fim, o presidente e seus ministros entoam um concerto de horrores diário, torturando os ouvintes com expressões chulas e estridentes.
Minha sensação é a de estar afundando num transatlântico ao som de uma banda heavy metal ou de uma composição de Marlos Nobre – o que me leva a pensar num recurso ao STF para reclamar o meu direito a morrer em silêncio. Não quero mais ouvir nada que seja produzido pelas cordas vocais das autoridades deste país, inclusive, os discursos empolados e ridículos dos homens de toga.
Que a sentença seja proferida em silêncio por intérpretes de LIBRAS ou simplesmente publicada nos jornais, com uma edição especial em braile. Definitivamente, é preciso que o general e ex-ministro da Saúde, o ex-chanceler e todos que ainda estão no exercício dos seus cargos se calem. Nada mais precisa ser dito e ouvido. Quanto mais dias governarem, mais estarão produzindo provas contra eles próprios. Eles não governam. Eles se incriminam e nós sofremos as consequências. Alguns mais do que outros.