
A reação de aliados do presidente da República por ter sido chamado de genocida e dois textos preciosos dos jornalistas Mariliz Pereira Jorge e Ruy Castro, publicados na Folha de São Paulo, transportaram-me para minha infância, quando eu pedia que meus irmãos me ensinassem, em segredo absoluto, os palavrões mais cabeludos. Lá em casa, eram tabus. Meu pai só admitiu um merda à mesa muito tempo depois, quando nosso amigo Zé Português passou a frequentar a casa. A irreverência e espontaneidade do Zé derrubaram todas as barreiras linguísticas que havia.
Felizmente, meus irmãos – até nove anos mais velhos do que eu – anteciparam-me alguma coisa. Trigonometria, pindamonhangaba e uberlândia, segundo eles, eram palavrões fortíssimos, que eu não deveria usar em nenhuma hipótese – recomendação, obviamente, ignorada. Na primeira ocasião, encontrei minha irmã e, em tom de desafio, soltei: “sua trigonometria!” Eu e minha irmã brigávamos o tempo todo e os palavrões eram recursos essenciais. Mas percebi que aquelas “palavras feias” só provocavam risos, e não as guerras que eu pretendia travar com meus desafetos mais queridos.
De qualquer forma, em momentos de raiva, eu soltava mesmo um uberlândia aqui, uma bissetriz ali ou um vai tomar na hipotenusa acolá. E, até hoje, ao contrário de pessoas queridas e sábias, os palavrões mais consagrados saem desajeitados da minha boca, sem a devida força… Eu adoraria mandar determinados próceres da República à… sim, à merda… e a lugares piores, como fazia o Zé. Os palavrões fluíam com harmonia. Ele praguejava como ninguém. Já, eu, nem após anos de terapia me libertei dessa repressão do passado.
Mas o surgimento do atual presidente do Brasil, por grande desgraça do destino, está produzindo em mim uma revolução interior. Não alcanço no meu baú da infância adjetivos que o descrevam. Chamá-lo de oxiúros? Dizer que ele tem a cara de voçoroca e voz de porciúncula? Não casa bem… Penso no cemitério do Caju e só tenho vontade de mandá-lo tomar… tenência. Mas isso vai mudar. Tenho 21 meses até o final de 2022 para encontrar o melhor vocábulo para associar à sua figura hedionda. Mas ouso dizer que ele é indescritível.