
Primeiro de março, 456 anos depois, o Rio de Janeiro continua lindo. Quem não se maravilha com imagens aéreas do Pão de Açúcar, do Corcovado e da Pedra da Gávea? A topografia do Rio com o mergulho das montanhas no mar é de tirar o fôlego. Bem diferente do que se vê de baixo, da perspectiva das calçadas, sobretudo, em bairros ao longo da Avenida Brasil. Há 70 anos, eles saiam bem melhor na foto, pois, assim como o meio ambiente tem sido castigado, o que foi feito pelo homem – e para a maioria dos homens – foi muito maltratado.
O Estado do Rio tem perto de 100 cidades e é difícil relacionar cinco que sejam bem administradas, funcionais, com a cultura protegida, acolhedoras, com moradias decentes para todos… Que dirá bonitas – a não ser pelos atributos da natureza. Veja-se Petrópolis, com tanta história e envolvida por um clima ameno. A antiga Cidade Imperial não é a Avenida Koeller, o Palácio do Imperador, a Catedral nem o Quitandinha. Nem seus distritos mais ricos, como Itaipava, Araras e Secretário são formados apenas por belos sítios e casas em paisagens rurais deslumbrantes. Todos são cercados de muita pobreza, por moradias precárias no alto dos morros, sob risco de desmoronarem, e nos leitos dos rios, sob o risco das inundações.
E os centros comuns de convivência, onde ficam as praças, as igrejas e os mercados não são nada convidativos. Em Itaipava, que frequento desde que nasci, o que se poderia chamar de Centro é uma sucessão de construções ao longo da velha rodovia União Indústria, sem calçadas, sempre engarrafada, onde se instalaram lojas e armazéns que suprem a vida de condomínios fechados e propriedades escondidas.
Há bons restaurantes e boas pousadas para quem pode pagar, mas o que é comum e forma um conjunto não é bonito. Aliás, como acontece em boa parte do país. Os recantos mais bonitos, quando não são desertos, são reservados. Para alcança-los é preciso vencer muros, muitas barreiras de descaso, e, lógico, transpor as guaritas e as porteiras. Afinal, segurança pouca, meu portão primeiro.
A pandemia está por toda parte, os aeroportos estão fechados e quem podia viajar não pode mais. Não há muitos villages, vilas, burgos ou aldeias encantadoras no Brasil. Sequer neva, lamentam alguns! Portanto, já que não é imposto, seria de bom alvitre que aqueles que podem mais se dedicassem melhor às comunidades que podem menos. A desigualdade ao redor não pode fazer bem a ninguém.
muito bom, Mauro. e adorei sua frase “segurança pouca meu portão primiero. uma trouvaille!!
CurtirCurtir