
Em tempos de confinamento, além do trabalho à distância, ver boas séries, rever filmes e devorar livros são opções para quem tem o privilégio de viver longe do front da luta pela vida. Anteontem, decidimos rever “Para Roma com amor”, do Woody Allen, e caímos numa armadilha engraçada. Abri o aplicativo da Amazon, cliquei no filme e… Êpa! Tinha alguma coisa errada. Onde estava o tenor de chuveiro e todos aqueles personagens memoráveis? Seria possível dois filmes com o mesmo título? Descobrimos. O problema era a preposição! Escolhi “De Roma com amor”, e não “Para Roma…” Uma autêntica “novela mexicana” ambientada entre Buenos Aires e Roma. Um desastre, perdoem-me os amantes dos dramalhões, mas fomos até o fim para confirmar o óbvio e, no fundo, assumindo nosso lado brega.
Passado o susto, no dia seguinte, voltamos ao projeto inicial para nos deliciarmos com “To Rome with love” e com Leopoldo Pisanello, uma pessoa maravilhosamente normal, interpretado por Roberto Benigni, que, de um dia para o outro, é confundido com uma estrela do cinema. Pisanello passa a ser perseguido pelos paparazzi, seduzido por boazudas e ter suas opiniões e seus gostos reverenciados pelo público. Num dado momento, sob holofotes, um jornalista pergunta o que ele tinha tomado no café da manhã e sua resposta faz sensação. “Uma xícara de café com leite, torrada, manteiga e geleia.” Uau! Que máximo! Nada é trivial no mundo das pessoas super importantes.
Mas os momentos de fama não duram para sempre e as celebridades em geral voltam para o mundo das pessoas comuns, da normalidade, onde as aparências e o tempo não enganam tanto. Depois da meia-noite, a carruagem sempre vira abóbora. E viva a abóbora! Hoje, ansiamos por voltar ao normal. Éramos mais felizes e não sabíamos. O mal sempre existiu, mas não creio que com tantos requintes. Os governos, por exemplo, eram ruins, mas não tanto. Quando Joe Binden substituiu Donald Trump no governo norte-americano, falou-se muito nas virtudes do governante normal, conservador ou progressista, mas normal. Aquele que dorme, acorda, toma café com leite, torrada, manteiga e geleia e vai trabalhar, sem dar uma paradinha antes para ser filmado, gravado, fotografado e soltar uma coleção de asneiras, antes de seguir para o palácio para tornar a vida das pessoas um pesadelo.
Que as abóboras retomem seu lugar de acompanhantes de carne seca. E que ningém perca seus sapatinhos…
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