A hiperinflação não preocupa há bastante tempo, mas a deterioração do valor das promessas nunca foi tão alta. O descrédito é total, em especial, quando elas partem de candidatos a cargos eletivos. Dizem que o Inferno pode ser transformado no Paraíso em pouco tempo. É só uma questão de gestão. Não faltarão médicos e remédios para os doentes, escolas maravilhosas, asfalto para as estradas, ar condicionado nos ônibus e teleféricos nos morros. A Baía de Guanabara será despoluída e até o Botafogo escapará do rebaixamento. Em tempos de eleição, nem o céu é o limite, pois vai chover no sertão, “eu prometo!”

E tudo isso porque me lembrei do meu tio avô Colombo. Eu tinha uns cinco anos e, sempre que nos encontrávamos na casa de minha avó, ele prometia me levar até a Barra da Tijuca, onde ele tinha uma casa com uma piscina enorme no meio de um gramado. Sua descrição era empolgante. A Barra, aquele lugar quase deserto, e uma casa com piscina! Eu ansiava pelo grande dia que a cada reencontro era adiado, mas a promessa era dada como certa. Logo, logo, eu conheceria aquela maravilha.

O tempo passou, tio Colombo se foi e vi a Barra surgir, crescer e crescer demais. Deixou de ser um bom sonho para se tornar um bairro ruidoso, engarrafado, sem ônibus refrigerados ou não, onde até o prédio chamado Cidade da Música tem de tudo, menos música. Um bairro ainda cheio de beleza – com certeza -, mas com ilhas cercadas por cancelas intransponíveis para muitos. Lagoas belíssimas, mas poluídas e, às vezes, até janjão na praia. Uma pena, mas, resultado da cobiça humana salpicada com muitas promessas também não cumpridas, como a da transformação de seus rios e lagunas numa Veneza tropical.

Tio Colombo, como a maioria dos homens, nada tinha a ver com o célebre personagem de Dias Gomes, filmado por Anselmo Duarte. O pagador de promessas é um homem obstinado em cumprir uma promessa à Santa Bárbara pela recuperação do seu burro. E promessa para criança também deveria ser sagrada… No entanto, no meu caso, não causou mal. Virou uma bela fantasia e a lembrança do seu bigode branco, verruga na testa, fazendo meus olhos brilharem ao imaginar o dia em que entraria naquela casa idílica da Barra da Tijuca. Já quanto às promessas em tempos de eleições, bem, só acredito se o candidato for Zé do Burro, o premiado personagem interpretado por Leonardo Villar. Ele tem palavra!